terça-feira, 10 de novembro de 2020

Neurose nas organizações

 “Não podes encontrar nenhum remédio para o cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada e com algum antídoto de esquecimento, doce e agradável, aliviar o peito, que opresso, geme ao peso da matéria maldosa que oprime o coração...”.

Shakespeare

 Ao começar uma palestra sobre o assunto da epígrafe, “Neurose nas Organizações”, fiz a seguinte pergunta aos participantes:

– Quem é neurótico?

Várias respostas surgiram, rotulando diversos tipos de caracteres e personalidades como “neuróticos”. Exemplos, anedotas e “causos” jorraram, sendo algumas delas curiosas e até divertidas. Mas nenhuma das respostas coincidiu com a resposta que estava aguardando. Uma avaliação rápida das mesmas permitiu tirar uma conclusão rápida: neuróticos são os outros. Nenhuma resposta incluía o sujeito que a estava enunciando. Depois de certo tempo, durante o qual houve uma rica troca de opiniões, solicitei aos participantes que encerrassem as discussões e ofereci a minha resposta à pergunta enunciada:

- Todos, em maior ou menor grau, somos neuróticos!

A plateia silenciou e percebi alguns movimentos de acomodação nas cadeiras por parte daqueles que, poderiam não estar concordando com este conceito.

Partindo deste princípio, considero importante, antes de prosseguir, explicitar o conceito de Neurose.

 

O que é Neurose?

 

É um tipo de transtorno mental, onde não se observa nenhuma grande distorção da realidade (como nos delírios ou alucinações), nem uma desorganização manifesta da personalidade. A mesma decorre do conflito neurótico provocado pela obstrução da descarga dos impulsos instintuais que ocorrem num estado em que estes estejam reprimidos. O sujeito neurótico vai ficando cada vez menos capacitado para administrar as tensões, sempre crescentes (e acumulativas), o que acaba resultando na sua total sujeição. O indivíduo fica preso às emoções reprimidas, procurando, de alguma forma uma descarga dessas tensões.

Como exemplo podemos considerar aquele sujeito que recebe, repetidamente reprimendas injustas do chefe. Até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental transitória induzida pela pressão exercida pela estrutura organizacional no ambiente de trabalho.

Ao voltar para casa, descarrega sua raiva projetando-a sobre um sujeito passivo e inocente, que nem sempre é o cachorro. Pode ser algum membro da família, um vizinho que deixou o carro atravessado na vaga, o porteiro e outros, que de forma inocente acabam se transformando no recipiente de descarga dessa tensão.

As pessoas neuróticas, em geral, apresentam algum grau de sofrimento e de desadaptação em alguma, ou mais de uma, área importante de sua vida: sexual, familiar, profissional ou social. Não entanto, conservam uma razoável integração do self (a imagem de si mesmo), além de uma boa capacidade de juízo crítico e de adaptação à realidade. Não devemos confundir Neurose com Psicose que são coisas bem distintas e com efeitos bastante diferentes. As psicoses são estados de insanidade mental apresentados por indivíduos que demonstram uma real incapacidade de reconhecer fatos e estabelecer relações entre eles, caracterizados pela presença de delírios e/ou alucinações, em que o sujeito costuma perder a noção da realidade.

Para melhor ilustrar este conceito podemos considerar os seguintes exemplos de psicoses:

• Coletiva: medo ou terror, que acomete várias pessoas ao mesmo tempo;

• De guerra: trauma derivado da participação em guerras;

• Canábica: causada pelo uso prolongado de maconha.

• Maníaco-depressiva: delírios de grandeza / poder alternados com outros de ruína, culpa, prejuízo, morte;

• Paranoia: transtorno delirante (ver problemas onde não há).

• Esquizofrenia: delírios, alucinações, comportamento e discurso francamente perturbados, (Ex.: conversar com uma entidade divina, através dos pelos das pernas);

 

O que é Neurose Organizacional?

 

É um quadro de perturbação psíquica observada em algumas pessoas membros de uma organização, as quais, geralmente, apresentam dificuldades de aceitação ou de adaptação às normas, conflitos, exigências, responsabilidades e situações diversas existentes. É importante salientar que na maioria dos casos, essas pessoas conseguem trabalhar, estudar, ter vida amorosa e estar relativamente bem entrosadas com a realidade, porém, existe “alguma coisa” que as perturba, que não está bem.

As pessoas vítimas de neurose organizacional vivem em permanente conflito psíquico consigo mesmas. Não conseguem desenvolver de forma prazerosa suas atividades, manter relacionamentos harmoniosos com seus gestores ou com outros membros da equipe. Em outras palavras, estão impedidas de aproveitar as vantagens e prazeres de uma existência livre de sofrimentos.

O ser humano é um todo indivisível, e não pode ser explicado pelos seus distintos componentes (físico, psíquico ou social-relacional), considerados separadamente.

A saúde, física e mental, de uma pessoa, não pode deixar de estar vinculada ao resultado de seu histórico de vida, de seus processos psíquicos, das vivências em família, daquilo que ficou recalcado (gravado) em seu inconsciente, das relações interpessoais, do convívio em sociedade e de uma proposta de trabalho que favoreça a realização de seus sonhos, suas aspirações para construção do seu projeto de vida.

Muitas vezes, um sujeito é rotulado como neurótico, sendo esta expressão mal utilizada como sinônimo de louco, pirado. Isso não corresponde ao verdadeiro significado da palavra. A neurose é um tipo de doença na qual os sintomas são a expressão simbólica de um conflito psíquico que se constitui a partir de compromissos entre o desejo e a repressão, utilizando-se para isso de mecanismos de defesa.

Geralmente estas neuroses eclodem a partir de situações antagonistas entre as próprias expectativas e aquelas que emanam de outras pessoas ou das diretrizes organizacionais. O neurótico tem consciência do seu problema e muitas vezes até se surpreende com seu próprio comportamento, porém, é típico dele sentir-se impotente para modificá-lo.

Como as pessoas passam a maior parte de seu tempo “vivendo” ou trabalhando dentro de organizações, onde não se escolhem os colegas de trabalho, é necessário intervir para evitar o poder traumático e negativo que muitos colaboradores exercem nos seus grupos, bem como, amenizar de forma gradativa o medo, a raiva, o stress, a frustração, a ansiedade e a depressão que surge nos ambientes de trabalho.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

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