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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Na sutil teia da dor

Uma teia é tecida lenta e cuidadosamente. Sem alarde. Sua resistência aumenta a cada fio agregado. Praticamente invisível, dificilmente poderá ser evitada pelas suas vítimas potenciais. É silenciosa, discreta e flexível. Não destrói nem devora. Não provoca feridas dilacerantes. Simplesmente prende, aprisiona.

Na sua transparência reside sua força. É muito difícil de ser notada. A percepção de sua existência, poderá ser o primeiro sinal de que já não há retorno, de que fomos capturados por ela.

Mas não é exclusivo de florestas ou telhados sombrios o ambiente propiciador das armadilhas caracterizadas pelas teias, tão sutis quanto poderosas. É na privacidade do lar, ambiente supostamente protegido e privativo da família, pretensamente iluminado e aquecido pela energia do amor que, com uma frequência muito maior que a imaginada, imensas, envolventes e poderosas teias emocionais são estendidas silenciosamente, com objetivo de capturar e sufocar sonhos, desejos e liberdades. São as teias do relacionamento abusivo.

Avaliamos como importante destacar algumas considerações que, em nosso entender, são essenciais para um melhor entendimento destes conceitos:

 1. Não há geração espontânea da teia.

As teias as quais nos referimos não têm geração espontânea nem surgem do acaso. São estendidas a partir de um primeiro fio ancorado num íntimo e perverso sentimento de dominação. Têm, na sua criação, objetivos e propósitos claramente definidos. Nascem pequenas, sutis, quase imperceptíveis. Se expandem lentamente, concêntricas, aumentando progressivamente sua capacidade de reter, imobilizar, asfixiar.

 2. Não possui exclusividade de gênero

Um relacionamento abusivo não possui características de dominância de gênero. Não é sinônimo de machismo ou feminismo. Embora exista uma predominância evidente de vítimas entre o sexo feminino, não devemos subestimar a situação oposta. Há sim, multiplicidade de situações nas quais, o homem é objeto de manipulação perversa pela sua companheira.

 3. Relacionamento abusivo é indiscutivelmente uma forma de violência doméstica

Embora não necessariamente um relacionamento abusivo termine em tapas ou agressões físicas de maior intensidade, caracteriza sim uma grave situação de violência na relação visto que seus efeitos, deixam marcas dolorosas e profundas nas pessoas, quebrando os sólidos alicerces nos quais deve ser fundado um convívio baseado no amor e no respeito mútuos.

Isto posto, devemos considerar que este tipo de relacionamento pode se estabelecer tanto entre pessoas inicialmente fortes, instruídas, resolvidas e de bem com a vida, quanto entre àquelas fragilizadas, menos afortunadas e carentes de suporte emocional e material adequado que lhes permita levar uma vida, pelo menos digna e socialmente aceitável. O relacionamento abusivo não escolhe classes sociais nem graus acadêmicos. É necessário acabar com falsas premissas e clichês qualitativos e estratificantes. Permeia todos os muros, níveis e categorias. Todos estamos sujeitos a ele.

O relacionamento abusivo não deve ser confundido com relacionamento conflitivo, àquele onde um casal vive “às turras”, brigando e discutindo por assuntos banais, ou procurando “pelos no ovo”, como é dito comumente. Não é este modelo de convívio que estamos focando.

O abuso geralmente se manifesta num ambiente que em nada se assemelha a uma batalha doméstica. Há um padrão comportamental identificado, onde agressões e violência física inexistem. O abusador, mostra-se gentil, carinhoso, romântico e por vezes altamente apaixonado. Atrai a presa para sua teia alimentando sua autoestima de forma intensa e envolvente. Percebe-se um discurso amoroso, com declarações inflamadas, onde afagos carinhosos e intensos elogios pessoais despertam emoções e sentimentos represados.

Neste ponto, devemos abrir um parêntese para esclarecer um aspecto chave que não podemos deixar de mencionar: O amor é lindo, e nunca é demais. Uma manifestação carinhosa, um reconhecimento, um elogio, quando espontâneo e natural, alimenta com sua energia a chama da felicidade. É a essência da vida a dois.

A luz de advertência deve ser acessa quando essas manifestações são exageradas, quando as provas de amor são cobradas de forma intensa e repetitivas. É necessário perceber e saber diferenciar uma declaração de amor espontânea daquela que tem, como objetivo mudar o foco, ocultar uma eventual constatação de desvio ou, principalmente alterar uma situação determinada para permitir uma alteração de percurso e assumir o controle.

 4. Amor e manipulação

Quando a relação está nas suas fases iniciais de descobertas, onde a paixão se sobrepõe, tanto em intensidade quanto em emoção, não é difícil identificar rompantes de amor e discursos inflamados. Não são estes momentos que estamos considerando. O nosso foco está centrado naquele relacionamento consolidado, estável ou pelo menos com certo grau de “normalidade relacional e social”. Não há romantismo “pulsante”, oscilatório, periódico. O amor é suave, permanente, continuado. É “no dia-a-dia” que se ama.

Quando a relação está pautada por episódios cíclicos de brigas, humilhações, ciúmes, críticas banais e desnecessárias, seguidas por momentos “especiais” de arrependimentos, romantismo, atitudes compensatórias e singularmente apaixonadas, devemos parar para pensar. Há, certamente uma luz de alerta se ascendendo.

Não se tapam buracos na relação com romantismo, flores ou declarações apaixonadas. Os desentendimentos não podem ser acobertados com presentes ou jantares à luz de velas. São as atitudes diárias que falam mais alto. Surpresas, presentes, caixas de bombons ou elogios ardentes não são demonstrações de amor. O amor se vive na pele, nas emoções, no compartilhamento de momentos bons e ruins. Se consolida na rotina do conviver em paz, não na excepcionalidade de um instante.

Promessas repetidas, regadas a desculpas e arrependimento, certamente não frutificarão, pois estão contaminadas com a intencionalidade. Não há sinceridade no pedido de perdão reiterado.

 5. Mudar para melhorar

Uma segunda faceta indicativa de um possível relacionamento abusivo pode ser identificada nas eventuais propostas realizadas, de forma indireta ou não, com intenção de promover mudanças comportamentais na outra parte.

Não nos referimos as propostas críticas realizadas de forma sincera e amorosa, com intenção construtiva, resultantes de diálogos abertos e bem intencionados. Uma relação baseada no amor e na sinceridade, permite a troca de opiniões francas assim como os diálogos críticos dentro dos limites naturais do respeito a individualidade e independência de escolha de cada um. Hábitos, gostos e costumes podem, e devem ser revistos, sempre de forma propositiva e na intenção de melhorar e aprimorar uma relação. Um casal aprende e evolui no diálogo e no amor, com tolerância e respeito pelas escolhas individuais. Isso não representa submissão. Ouvir a pessoa que nos ama ou aceitar sugestões dela, quando bem intencionadas, ajuda a estabelecer uma relação de intimidade e parceria.

Quando as mudanças sugeridas envolvem traços pessoais e particulares de comportamento, estrutura do pensamento ou estilo de vida, para serem adequados à identidade e preferências do outro, estaremos frente a uma invasão tóxica de nossa personalidade.

O abusador, de forma sutil, porém consistente, buscará mostrar que uma atitude correta, um modo certo de pensar ou agir está sempre assentado na sua própria forma de enxergar as coisas. Seu corte de cabelo, suas roupas, suas escolhas pessoais, suas amizades, seus perfumes, os livros que você lê, seus cursos e atividades acadêmicas, enfim, as características próprias de sua personalidade serão questionadas indiretamente. Não haverá uma crítica objetiva e contundente, mas comentários depreciativos e desaprovadores do tipo:

-   “Isso não está errado, claro. Porém ficaria melhor em você assim ou de tal forma...”

-    “Esse perfume é doce demais para você... prefiro tal outro...”

-   “Não entendo como você pode gostar disso..., eu prefiro assim.”

-   “Essa roupa fica melhor em pessoas magras... acho melhor para você, essa outra.”

-   “Esse curso é totalmente sem futuro... para você melhor seria...”

 Você pode pensar que nada custa uma pequena adequação no meu penteado, ouvir sua opinião, atender seus desejos, realizar pequenos ajustes de estilo para atender seus pedidos. Pequenos sacrifícios ajudam a manter uma boa relação, certo?

Errado. Nos termos acima expostos, o que realmente está acontecendo é uma verdadeira submissão da individualidade, um cancelamento da identidade. A liberdade de pensar, de gostar, de ser, desejar e sonhar, é bloqueada. As emoções são anuladas, o prazer é substituído pela insegurança e o medo. Não há amor nessa relação. Ele morreu na sutil teia da dor.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

As fantasias e a realidade

As fantasias permeiam nossas vidas, habitam em nós e determinam nossas atitudes. Não podemos nos isolar delas. São omnipresentes. Não é possível separar o mundo das fantasias do mundo concreto, objetivo. Interferem e deformam nossa percepção da realidade, numa continua e incessante procura de oferecer satisfação imediata aos nossos desejos. Parasitam e dividem nosso eu, se alimentam de nossas angustias.

Como isso é possível? Para que servem as fantasias? Como é possível que nos dominem em tal grau e intensidade? O que são essas tão poderosas e dominantes fantasias?

 

“Uma fantasia é a encenação, no psiquismo, da satisfação de um desejo imperioso que não pode ser saciado na realidade. Observemos, porém, que a fantasia pode, ao contrário, desempenhar o papel de estimulador do desejo, reavivá-lo e aumentar seu ardor. (Nasio, Juan-David, 2007, p.10)”.   

 

As fantasias influenciam continuamente nosso comportamento, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Tingimos os cabelos para ocultar os fios brancos a pesar deles permanecerem brancos na sua essência. Utilizamos cremes para eliminar rugas na pele, adquirimos roupas modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. Adquirimos aparelhos eletrônicos “Top Class”, com infinitos recursos que nunca utilizamos, para poder mostrar que estamos antenados no que há de mais moderno e que estamos surfando na onda mais atual. Utilizamos uma gravata “listrada” porque nos dá um ar mais descontraído e juvenil, adquirimos um carro esportivo e poderoso para impactar o nosso grupo social, enfim, construímos um “eu” paralelo, imaginário, fruto dos devaneios e comandos emanados de nossas fantasias. Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores.

Neste ponto, me permito relatar uma situação que marcou minha vida:

 

Um cabelereiro, que me atendeu durante mais de 20 anos, me perguntou:

- Seu cabelo é totalmente branco, porque não utiliza o produto “X” como xampu, vai escurecer o cabelo progressivamente e lhe dar um aspecto juvenil?

Minha resposta foi imediata:

- Deixe meu cabelo naturalmente branco, como ele é. Demorou 60 anos para ficar assim. Me permita respeita-lo na sua idade.

 

Não estou questionando a elegância, o perfume, o cosmético ou a forma de vestir. Pelo contrário, sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos.

Meu questionamento centra-se na perda total da identidade, como fruto do domínio absoluto de nossas vidas, pelas fantasias.

As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Bibliografia:

 

NASIO, Juan-David. A fantasia. O prazer de ler Lacan. [Tradução, André Telles e Vera Ribeiro] – Rio de Janeiro, Zahar,2007,

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Neurose nas organizações

 “Não podes encontrar nenhum remédio para o cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada e com algum antídoto de esquecimento, doce e agradável, aliviar o peito, que opresso, geme ao peso da matéria maldosa que oprime o coração...”.

Shakespeare

 Ao começar uma palestra sobre o assunto da epígrafe, “Neurose nas Organizações”, fiz a seguinte pergunta aos participantes:

– Quem é neurótico?

Várias respostas surgiram, rotulando diversos tipos de caracteres e personalidades como “neuróticos”. Exemplos, anedotas e “causos” jorraram, sendo algumas delas curiosas e até divertidas. Mas nenhuma das respostas coincidiu com a resposta que estava aguardando. Uma avaliação rápida das mesmas permitiu tirar uma conclusão rápida: neuróticos são os outros. Nenhuma resposta incluía o sujeito que a estava enunciando. Depois de certo tempo, durante o qual houve uma rica troca de opiniões, solicitei aos participantes que encerrassem as discussões e ofereci a minha resposta à pergunta enunciada:

- Todos, em maior ou menor grau, somos neuróticos!

A plateia silenciou e percebi alguns movimentos de acomodação nas cadeiras por parte daqueles que, poderiam não estar concordando com este conceito.

Partindo deste princípio, considero importante, antes de prosseguir, explicitar o conceito de Neurose.

 

O que é Neurose?

 

É um tipo de transtorno mental, onde não se observa nenhuma grande distorção da realidade (como nos delírios ou alucinações), nem uma desorganização manifesta da personalidade. A mesma decorre do conflito neurótico provocado pela obstrução da descarga dos impulsos instintuais que ocorrem num estado em que estes estejam reprimidos. O sujeito neurótico vai ficando cada vez menos capacitado para administrar as tensões, sempre crescentes (e acumulativas), o que acaba resultando na sua total sujeição. O indivíduo fica preso às emoções reprimidas, procurando, de alguma forma uma descarga dessas tensões.

Como exemplo podemos considerar aquele sujeito que recebe, repetidamente reprimendas injustas do chefe. Até indivíduos dotados de uma sólida estrutura psíquica podem ser vítimas de uma paralisia mental transitória induzida pela pressão exercida pela estrutura organizacional no ambiente de trabalho.

Ao voltar para casa, descarrega sua raiva projetando-a sobre um sujeito passivo e inocente, que nem sempre é o cachorro. Pode ser algum membro da família, um vizinho que deixou o carro atravessado na vaga, o porteiro e outros, que de forma inocente acabam se transformando no recipiente de descarga dessa tensão.

As pessoas neuróticas, em geral, apresentam algum grau de sofrimento e de desadaptação em alguma, ou mais de uma, área importante de sua vida: sexual, familiar, profissional ou social. Não entanto, conservam uma razoável integração do self (a imagem de si mesmo), além de uma boa capacidade de juízo crítico e de adaptação à realidade. Não devemos confundir Neurose com Psicose que são coisas bem distintas e com efeitos bastante diferentes. As psicoses são estados de insanidade mental apresentados por indivíduos que demonstram uma real incapacidade de reconhecer fatos e estabelecer relações entre eles, caracterizados pela presença de delírios e/ou alucinações, em que o sujeito costuma perder a noção da realidade.

Para melhor ilustrar este conceito podemos considerar os seguintes exemplos de psicoses:

• Coletiva: medo ou terror, que acomete várias pessoas ao mesmo tempo;

• De guerra: trauma derivado da participação em guerras;

• Canábica: causada pelo uso prolongado de maconha.

• Maníaco-depressiva: delírios de grandeza / poder alternados com outros de ruína, culpa, prejuízo, morte;

• Paranoia: transtorno delirante (ver problemas onde não há).

• Esquizofrenia: delírios, alucinações, comportamento e discurso francamente perturbados, (Ex.: conversar com uma entidade divina, através dos pelos das pernas);

 

O que é Neurose Organizacional?

 

É um quadro de perturbação psíquica observada em algumas pessoas membros de uma organização, as quais, geralmente, apresentam dificuldades de aceitação ou de adaptação às normas, conflitos, exigências, responsabilidades e situações diversas existentes. É importante salientar que na maioria dos casos, essas pessoas conseguem trabalhar, estudar, ter vida amorosa e estar relativamente bem entrosadas com a realidade, porém, existe “alguma coisa” que as perturba, que não está bem.

As pessoas vítimas de neurose organizacional vivem em permanente conflito psíquico consigo mesmas. Não conseguem desenvolver de forma prazerosa suas atividades, manter relacionamentos harmoniosos com seus gestores ou com outros membros da equipe. Em outras palavras, estão impedidas de aproveitar as vantagens e prazeres de uma existência livre de sofrimentos.

O ser humano é um todo indivisível, e não pode ser explicado pelos seus distintos componentes (físico, psíquico ou social-relacional), considerados separadamente.

A saúde, física e mental, de uma pessoa, não pode deixar de estar vinculada ao resultado de seu histórico de vida, de seus processos psíquicos, das vivências em família, daquilo que ficou recalcado (gravado) em seu inconsciente, das relações interpessoais, do convívio em sociedade e de uma proposta de trabalho que favoreça a realização de seus sonhos, suas aspirações para construção do seu projeto de vida.

Muitas vezes, um sujeito é rotulado como neurótico, sendo esta expressão mal utilizada como sinônimo de louco, pirado. Isso não corresponde ao verdadeiro significado da palavra. A neurose é um tipo de doença na qual os sintomas são a expressão simbólica de um conflito psíquico que se constitui a partir de compromissos entre o desejo e a repressão, utilizando-se para isso de mecanismos de defesa.

Geralmente estas neuroses eclodem a partir de situações antagonistas entre as próprias expectativas e aquelas que emanam de outras pessoas ou das diretrizes organizacionais. O neurótico tem consciência do seu problema e muitas vezes até se surpreende com seu próprio comportamento, porém, é típico dele sentir-se impotente para modificá-lo.

Como as pessoas passam a maior parte de seu tempo “vivendo” ou trabalhando dentro de organizações, onde não se escolhem os colegas de trabalho, é necessário intervir para evitar o poder traumático e negativo que muitos colaboradores exercem nos seus grupos, bem como, amenizar de forma gradativa o medo, a raiva, o stress, a frustração, a ansiedade e a depressão que surge nos ambientes de trabalho.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

O feixe de lenha

 

Existem diversos exemplos de organizações onde o relacionamento entre o patriarca, geralmente fundador e gestor maior, e seus herdeiros não é favorável a uma transição adequada e construtiva que permita a continuidade e prosperidade dos negócios.

Ciúmes, interesses desencontrados, conflitos pessoais, egos inflados e rivalidade conspiram contra a perpetuação da estrutura organizacional, provocando muitas vezes divisões e rachas que enfraquecem sua solidez e comprometem seu futuro.

Durante uma palestra Clima Organizacional, da qual participei com interesse, foi contada a seguinte história, que considero oportuna reproduzir, embora não tenha maiores informações sobre sua autoria.

 Conta-se que um próspero empresário, dono de muitas propriedades, estava gravemente enfermo. Um assunto que muito lhe preocupava era o clima de desavença que reinava entre seus quatro filhos, herdeiros de sua fortuna. Pensando em dar-lhes uma lição, ele os convocou para fazer-lhes uma revelação importante.

Sentado numa cadeira de balanço, o pai os recebeu carinhosamente na sua casa de campo. Com voz calma, chamou-os para mais perto e comunicou-lhes a seguinte decisão: “Como vocês sabem, estou ficando velho e cansado e creio que não me resta muito tempo de vida. Por isso, vos convoquei aqui para avisá-los que vou deixar todos os meus bens para apenas um de vocês”.

Os filhos, surpresos, entreolharam-se e ouviram em silêncio o restante que o pai tinha para lhes dizer: “Vocês estão vendo aquele feixe de gravetos ali, encostados naquela porta? Àquele que conseguir partir o feixe ao meio, apenas com as mãos, este será meu herdeiro”.

Cada um deles, por sua vez, teve a sua chance de tentar quebrar o feixe, mas nenhum, por mais esforço que fizesse, foi bem sucedido na sua tentativa.

Indignados com o pai, que lhes propusera uma tarefa impossível, começaram a reclamar. Foi quando o fazendeiro pediu o feixe e disse que ele mesmo iria quebrá-lo. Incrédulos, os filhos deram o feixe de gravetos para o pai, que foi retirando, um a um, os gravetos, quebrando-os, separadamente, até não mais restar um único graveto inteiro. E depois concluiu: “Eu não tenho o menor interesse em deixar os meus bens para só um de vocês. Eu quero, na verdade, que vocês, juntos, sejam os sucessores do meu trabalho, com garra, dedicação, e acima de tudo, repleto de amor”

Disse, ainda: “Enquanto permanecerem juntos e unidos, nada poderá pôr em risco aquilo que durante tanto tempo foi construído para vocês. Ninguém poderá quebrá-los. Mas se continuarem a agir de forma individualista e independente, serão facilmente quebrados, pois individualmente, são tão frágeis quanto cada um desses gravetos”.

Sem dúvida, a lição do velho empresário, pode ser aplicada a muitos casos de relacionamento entre patriarcas e herdeiros, e merece, certamente, uma reflexão mais profunda, por parte daqueles que, como consequência dos próprios arroubos da juventude, procuram o sucesso individual e egoísta, desprezando tudo aquilo que foi sedimentado ao longo de anos e mais anos de trabalho e esforço pelas pessoas que deram forma a essa organização que está preste a mudar de comando.

Os interesses pessoais devem, frequentemente, serem postos de lados, em benefício de interesses comuns que, certamente, refletirão em maiores oportunidades e benefícios futuros. Para tanto, é necessário incorporar uma grande dose de humildade aos egos individuais e reconhecer que, de forma análoga aos gravetos, a força decorre da união.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

Nosso organismo celular

 

Um amigo me relatou uma história interessante:

“Hoje, ao chegar ao escritório, percebi que tinha deixado meu celular em casa. Fiquei paralisado. Uma sensação de angustia começou a oprimir meu peito. O que fazer? Senti-me perdido no meio do oceano. Estava suando frio. Respirei fundo, e tomei uma decisão arriscada. Vou passar o dia sem celular! Se alguém quiser entrar em contato comigo, terá que encontrar algum outro meio para se comunicar. Durante a jornada, recebi diversas ligações, encaminhadas ao telefone fixo da empresa. Quase todas elas começaram assim:
- Liguei para teu celular e parece que está desligado. Está havendo algum problema?”

Nesse momento, parei para meditar sobre o assunto. Há poucos anos atrás nem sequer existia telefone celular... E hoje, é quase impossível viver sem ele. O celular virou prótese humana. Ele permanece grudado em nós. Analogamente a uma prótese dental que, durante a noite, é deixada dentro de um copo d’água. O celular é deixado ligado, sobre a mesa de cabeceira. A justificativa é: “... alguém pode querer ligar para mim...”. Dessa mesma forma, toda a parafernália eletrônica que hoje nos acompanha a cada instante durante nosso dia-a-dia. Estamos “vestidos” de aparelhos eletrônicos. Não conseguimos nos desgrudar deles.

Parece-me oportuno propor uma breve reflexão sobre esta “e-droga” que está provocando uma adição quase incontrolável nas pessoas. Embora possa parecer uma ideia estapafúrdia e descabida, é necessário estabelecer critérios rígidos e limitativos sobre as pessoas que participam de reuniões presenciais de trabalho, atendem em consultórios, assistem palestras, dirigem veículos, almoçam ou jantam com entes queridos, se juntam para namorar, enfim, que estão vivas. Separem-se do celular e realizem suas atividades de forma natural. Respeitem seus pacientes. Curtam os momentos de felicidade, descansem, permitam que o organismo elimine as toxinas digitais de suas mentes. Utilizem esse dispositivo magnetizante de forma racional. Permitam-se à liberdade de estar “off-line”, de ficar “no silencioso”. Faça do telefone uma ferramenta e não permita que se transforme em seu amo ou senhor. Não aceite que comande suas ações nem escravize seu pensamento. Essa pequena maravilha está programada para dominar, escravizar, controlar, comandar, inibir sua capacidade de pensar. Suas correntes são invisíveis, poderosas e mantêm sua atenção prisioneira dos seus chamados. Nós não possuímos um meio de comunicação. Ele nos possui, nos controla, determina nossas ações. Possui um laço que nos mantém amarrados 24 h. por dia. Condiciona nossas ações através de sons especificamente programados.

A tecnologia, sem lugar a dúvidas, sempre será bem-vinda, pois graças a ela, o mundo tem progredido de forma exponencial e, certamente os avanços conquistados são de um valor incalculável. Não sou contra ela, não a menosprezo nem a rejeito de forma alguma. Minha preocupação centra-se no efeito perverso de adição que essa tecnologia provoca. Àquele indivíduo que podemos denominar de “viciado em bytes” se afasta progressivamente do mundo real e passa a conviver em um ambiente virtual, onde os parâmetros de realidade, tempo e distância se diluem, confundem e perdem seu verdadeiro significado. Um poderoso e dominante Superego digital, controla suas ações em função dos impulsos cibernéticos recebidos. Um Superego digital narcisista e poderoso, um juiz, um censor, que determina prioridades, que aumenta sua força e se retroalimenta com o domínio de cada nova tecnologia colocada à disposição.

A própria linguagem das pessoas, encontra-se distorcida por palavras e expressões geralmente em inglês, que descaracterizam seu próprio idioma, e torna a conversa quase que codificada. Não é boa práxis sermos inimigos dos avanços tecnológicos, porém, devemos ter o necessário bom senso para não permitir que nos devorem e arrastem como uma torrente incontrolável, fazendo nos perder o verdadeiro sentido da vida. Ser tecnologicamente atualizados certamente nos permite melhorar nosso desempenho profissional, e nos abre muitas portas pelo mundo afora, mas, quando essa atualização se transforma em adição, o desempenho, certamente começará a ficar comprometido, e as portas do mundo real, inicialmente abertas, uma a uma se fecharão, até restar unicamente o espaço virtual, sem vida, sem o necessário calor humano, tão caro à sobrevivência do homem.

Não podemos ficar reféns da tecnologia, embora a tentação a viver conectados seja grande, pois desta forma estaremos nos isolando do convívio diário, do diálogo, da carícia, do calor da pele. Dessa imprescindível dose de isolamento que nos permite sentir prazer em viver e viver com prazer. Corremos o iminente perigo de nos transformar em objetos virtuais, descartáveis (deletáveis) e com a possibilidade de trocar por outro melhor e mais moderno (fazer upgrade) toda vez que nossas expectativas não sejam atendidas a contente. Se olharmos com atenção ao nosso redor, poderemos observar que isso já está acontecendo. No trabalho, na família, no amor, na relação de amizade, nos negócios e em toda e qualquer atividade do ser humano moderno. Estamos, cada vez mais, incorporando tecnologia e, lamentavelmente, descartando pessoas.

 

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

Pessoas tóxicas: O colega mal intencionado

 

No relacionamento profissional, as pessoas encontram todo tipo de indivíduos. Haverá àqueles que tomando sua mão, assumirão a responsabilidade informal de lhe guiar e orientar, procurando seu sucesso de forma amigável e desinteressada. Outros não passarão de um formal “bom dia”, “boa tarde”, “até amanhã”. Porém, não são essas pessoas que nos preocupam. Nosso foco recai naquele colega que permanece em silêncio,  que olha você de soslaio procurando identificar uma falha ou ponto fraco, que procura seu erro e o capitaliza para si, que percebe seu desacerto e permanece em silêncio, esperando a oportunidade para lhe colocar em destaque frente aos olhares críticos dos outros e dos seus superiores. Àquele que, fica na tocaia, aguardando o momento para adotar alguma atitude ou postura inesperada para cima de você, com a mais pura e total intenção de lhe prejudicar. Essas pessoas são alimentadas e vivem tomadas pelo rancor, pelo ódio sem motivo. A inveja toma conta dos seus pensamentos, e potencializa suas atitudes. São dominados internamente por uma raiva intensa, cobram do mundo respostas, como se o mundo lhes estivesse devendo favores. Não podem ser consideradas parceiras de nada. Sustentam uma relação altamente tóxica, que fomenta a discórdia e semeia rancor e angustia nos corações. É necessário extirpa-las de qualquer tipo de relacionamento, sob risco de terminar contaminando fortemente o ambiente relacional. Devemos mantê-las à distância, colocar barreiras na relação e afastar-se o máximo possível do convívio. A toxina que destilam, corroe, queima e destrói qualquer relação, seja pessoal ou profissional.

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Pessoas tóxicas: O amigo falador

 

Existem hoje diversos canais de comunicação imediata, quase instantânea, que potencializam a capacidade das pessoas se comunicarem entre si. Estamos mais que habituados a usá-los e não vamos nos deter em detalhes. Essa comunicação “on line”, permite transmitir mensagens em “tempo real”, ou seja, notícias, comentários, fotos e gravações de vídeos espalham-se e espelham-se imediatamente entre pessoas, que podem-se encontrar dispersas pelo mundo afora. Essa situação de atualização tecnológica não descarta, no entanto, o velho e tradicional encontro entre duas ou mais pessoas para conversar, trocar ideias e “matar saudades”. Os conceitos aqui expostos, são extensivos e se aplicam de igual forma a esses encontros pessoais. A tecnologia a serviço da informação veio para ficar e ser cada vez mais assertiva e poderosa. O que não vai mudar tão cedo, é a necessidade de ter pessoas nesse circuito. Ressalvando as comunicações automáticas e contatos tecnológicos entre sistemas, são as pessoas que utilizam estas facilidades para entrar em contato entre si, para conversar, enviar mensagens e tecer comentários, virtuais ou pessoais. Neste ponto, queremos colocar em foco um tipo muito particular de indivíduo, que frequentemente forma parte de nosso rol de amizades. Estamos nos referindo àquele “amigo” que fala mal de todos os conhecidos comuns. Àquele que envia uma “mensagem” contando o que ontem fez “fulano” com “sicrano”. Que comenta “horrorizado” como esse fato impactou “beltrano”, que ficou arrasado com a ocorrência. É àquele que fala “em off” do problema do seu melhor amigo, e que pede para você ficar em silêncio e não comentar “com ninguém” o fato, pois “se alguém souber pode prejudicar seriamente o amigo”. Essa amizade é negativa e desprezível, pois contamina os relacionamentos comuns, ao requerer de você uma discrição e sigilo, que ela própria não soube preservar. Não há relação sadia na comunicação perversa de uma notícia. Ao aceitá-la, nos tornamos cúmplices da perversidade. É necessário descartar esse tipo de amizade. Numa linguagem moderna, devemos deletar esse contato, pois somente traz veneno na comunicação. Não devemos aceitar nem compartilhar àquilo que, se acontecesse conosco, seria extremamente desagradável. Esse tipo de amizade é, definitivamente, altamente toxica para nós.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.