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quinta-feira, 17 de março de 2022

As palavras, úteis ou fúteis?

 Existem momentos nos quais é necessário parar por alguns instantes para refletir sobre certos acontecimentos que afetam nosso dia a dia e, consequentemente, de uma forma ou de outra, nossa vida. Me refiro ao valor verdadeiro de tudo aquilo que, a cada momento recebemos como informação, através de palavras e mensagens enviados pelos médios de comunicação disponíveis.

Como ponto de partida, me permito retornar um pouco no tempo, até 16 de novembro de 2020, quando publiquei neste blog um texto onde foram tecidos alguns comentários sobre “O poder da palavra”. Traduzimos nossas ideias com os seguintes conceitos, que permanecem atuais:

 

A palavra, como elevada forma de expressar os pensamentos, tem a capacidade de tornar transparentes os sentimentos do ser humano e adotam a cor, o brilho e o sabor das emoções com as quais são proferidas.

Nos aparece encarnada na explosão da ira, celeste nas preces, rosa no canto maternal. Brilhante quando elogia, opaca-se numa calunia. Doce no afago, se azeda na crítica. Amorosa no abraço, sensual na expressão, libidinosa na resposta, assume o papel de mensageiro das emoções.

Possui afiadas bordas que provocam profundas feridas quando proferida de forma insensata, mas pode também, ser portadora do bálsamo delicado que cicatriza os cortes.

A palavra é arma e redenção, é ofensa e compreensão; é instrumento, objeto, recipiente e conteúdo. É poderosa. Marca, deixa rastros. O Ser encarna-se através da palavra, da mesma forma que o Poder e o Querer.

Sendo assim, tão valiosa e volúvel, todos os cuidados possíveis devem ser tomados antes de usá-la. Vale muito mais uma palavra silenciada na esperança de uma reconciliação, que uma torrente verbal avassaladora despejada com ódio no calor de uma disputa. (Pisandelli, 2020) [1]

 As palavras podem estar impregnadas de valor, de significado e relevância. Podem ser comparadas a um vetor de impulso que através de sua ação, proporciona oportunidades de melhoria e crescimento nas relações interpessoais. São aquelas palavras que transportam, no seu seio, energias positivas, boas intenções e sobre tudo um verdadeiro e sincero desejo de crescimento social. São palavras úteis, que acrescentam e constroem. Não há energia negativa, desejo de vingança ou crítica azeda.

Em contrapartida, existem àquelas palavras, que impregnadas de uma seiva amarga e corrosiva queimam, ferem nossos espíritos. Voam como setas agressivas, lançadas para lacerar sem importar as consequências dos seus efeitos. Somente projetam raiva, ressentimento e despeito. São palavras fúteis, que nada constroem nem acrescentam. São ocas, sem importância relevante nem utilidade. Caracterizadas por uma sensação de mágoa, são geradoras de desprazer, de rancor ou de angústia sentida por àqueles que são alvos escolhidos.

Pequena é a diferença entre as expressões úteis e fúteis, mais enorme enquanto ao seu significado. É neste ponto que desejamos chamar para reflexão nosso leitor.

A crítica, quando construtiva e bem intencionada, sempre será útil, bem vinda. As palavras corrigem sem ferir, ajustam sem ofender, sugerem sem lacerar. Uma opinião será sempre bem recebida quando seu objetivo esteja pleno de boas intenções.

Sendo ela destrutiva, agressiva ou debochada, será sempre fútil, irrelevante, sem importância nem utilidade. Estará desprovida de essência, será tola e desnecessária.

Abençoados são todos os médios de comunicação, que encurtam distâncias, que nos permitem estar a par, quase instantaneamente, de tudo àquilo que de bom ou de ruim acontece em nosso mundo. Não tenho nada a criticar sobre o progresso da comunicação. Minha angustia se centra naquelas mensagens fúteis, escritas por pessoas que não se aprofundam nos assuntos, que não param para pensar sobre àquilo que expressam, nem muito menos nos efeitos que suas palavras podem provocar.

Sugiro meditar sobre este assunto e sua importância. A “Caixa de Pandora” foi aberta, e assim permanece há muitos e muitos anos, espalhando todas suas mazelas na humanidade. Porém, e a pesar de tudo, ainda resta a Esperança, solidamente fincada no interior de nossos corações.

Vamos meditar um instante antes de escrever ou enviar qualquer mensagem, informação ou notícia. Vamos tratar de que sejam sempre úteis e jamais fúteis.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Onde está o lobo mau...?

 Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. O Autor

A sociedade contemporânea passa por mudanças contínuas, radicais e imprevistas, as quais se processam de tal forma aceleradas que frequentemente nos resulta praticamente impossível acompanhá-las na sua totalidade, visto o ritmo frenético, quase torrencial com que aparecem. Uma imensa maioria, acontece, evolui e desaparece sem que sequer tomemos, ao menos, conhecimento de sua existência. As pessoas, seus negócios, interesses, desejos e relacionamentos se multiplicam, desdobram, modificam, fusionam e/ou adotam as formas mais diversas possíveis. Os mecanismos, regras, normas e canais de comunicação e interação social são mutantes, interligados, multiformes. Se apresentam em multiplataformas e obtém alcance planetário quase imediato. As fronteiras e limitações físicas são abolidas em nome do progresso, da globalização e da liberdade de expressão. Atitudes éticas e comportamentais tradicionais são contestadas e substituídas por novas sem terem previamente passado pelo recomendável crivo de um julgamento crítico. Muitas destas novas atitudes possuem regras normativas (quando as possuem) cujos valores nem sempre se fundamentam numa razão ou estruturação sólida e consistente que justifiquem a mudança. As vezes são simples mudanças de tons, das mesmas cores. Outras, no entanto são radicais, a ponto de estabelecer verdadeiras revoluções estruturais na arquitetura da sociedade. 

As cidades, hoje transformadas em megalópoles, gigantescos e massivos conglomerados urbanos, padecem com suas ruas saturadas de veículos, seus enormes centros comerciais e imensas torres de cimento, aço e cristal que crescem e se expandem a cada instante, em todos os sentidos possíveis. Sempre maior, mais largo, mais alto, mais profundo, procurando utopicamente um pseudo-isolamento físico alienado. Nesse espaço privativo e isolado se procura, curiosamente e de todas as formas possíveis, permanecer continuamente interligado com o resto do mundo.  As distâncias se encurtam de tal forma, que é possível tomar o café da manhã em Fortaleza, almoçar em Brasília e jantar em Buenos Aires, tudo num mesmo dia. Paradoxalmente, um verdadeiro caos relacional, estabelece suas próprias regras, e as pessoas mergulham a cada dia, de forma mais e mais profunda nele. Nada permanece imutável na vida dos seres humanos. Tudo é permanente até ser substituído. A relação familiar é descartável! O amor eterno de hoje se transforma em ódio amanhã. Mata-se um filho porque incomoda no relacionamento entre os pais. Adota-se um animal, e abandona-se uma criança no depósito de lixo.

Certamente haverá pessoas que, levantarão suas vocês de indignação ao ler estas palavras. Outras reconhecerão, que de uma forma ou de outra já participaram de situações similares. Muitas, sem dúvida, as rejeitarão, taxando-as de exageradas e mentirosas.

Embora relevantes e sempre respeitadas por mim, essas opiniões individuais e divergentes não passam disso, pois não há possibilidades de fugir da realidade. Uma realidade que está presente no dia-a-dia, e vivenciada por nós, e somos parte inseparável dela. Não obstante essas avassaladoras mudanças, existem múltiplos elementos ocultos que fazem parte dessa sociedade em permanente e dolorosa revolução, que continuam solidamente enraizados nas suas entranhas, nos alicerces de sua estrutura, desde o início dos tempos e que, embora alterando continuamente sua roupagem, jamais deixaram de estar presentes, comprovando com sua presença que a pesar das mudanças, muitas coisas continuam iguais.

Estamos nos referindo a uma praga universal que se encontra entre as maiores e mais dolorosas mazelas sociais: a pedofilia, o abuso sexual de crianças. Ela se espalha em silêncio, se ramifica, muda de forma, de cor e de tamanho. É contaminante e parasita suas vítimas, sugando delas o sorriso, a alegria de viver e deixando nelas cicatrizes indeléveis que as marcarão para sempre.

Não obstante, e a pesar da gravidade da situação, podemos considerar que nem tudo está perdido. Pandora, na sua angustiante constatação do erro cometido, ainda tentou fechar a ânfora divina, mas era tarde demais: tudo tinha vazado dela, com a exceção da "esperança", que permaneceu presa junto a sua borda. Essa esperança se encontra hoje alojada em nossos corações e assim deve permanecer sempre, viva neles. Esta é a única forma de assegurar que o homem não será derrotado pelo mal, sucumbindo às dores e aos sofrimentos da vida.

Este trabalho não é uma denúncia, nem uma receita para julgar o pedófilo nem um manifesto destinado a acabar com a pedofilia, mas uma forma de trazer à tona uma verdade, nem sempre evidente: a necessidade de exercer uma paternidade responsável, requisito essencial para a sobrevivência do ser humano. Sermos pais responsáveis envolve muito mais que procriação, alimentação e satisfação de desejos de consumo dos filhos. É a tarefa mais nobre e complexa que o ser humano deve enfrentar, embora nem sempre sejamos perfeitamente conscientes disso. Essa paternidade requer como obrigação, a necessidade de olhar para nossos filhos com amor, e sermos capazes de abdicar de tudo aquilo que seja banal em nome desse amor.

Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. Ensinar e educar são coisas diferentes. A escola pode assumir a responsabilidade de ensinar, más a educação é um encargo que corresponde exclusivamente ao grupo familiar. É uma tarefa indelegável, impossível de ser terceirizada. Essa educação inclui, no seu âmago o cuidado pela prevenção da integridade física e mental das crianças. Deixa-la de lado, significa abdicar da função paterna.

Esperamos que a leitura deste texto permita acender uma luz na úmbria caverna do caos, e permita nos orientarmos, para que, junto aos nossos filhos encontremos o melhor caminho em direção à saída.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Onde está o lobo mau (Parte II): Isso nunca acontecerá com nossos filhos!

 A fábula “Chapeuzinho Vermelho”, é certamente, por todos nós conhecida, não obstante isso, nem sempre valorizada na sua justa medida, nem reconhecidos os seus importantes ensinamentos. Encerra, nas suas palavras, uma mensagem por demais esclarecedora, a qual é dirigida não só às crianças que adoram ouvi-la, mas particularmente aos pais, que com frequência preocupante permitem que seus filhos se adentrem nas “florestas da vida”, confiantes em que nada virá a lhes acontecer.

Estas postagens (Parte I e II) não tem, nem nunca tiveram, a pretensão de serem um tratado sobre abuso de crianças ou pedofilia, nem poderiam sê-lo, considerando a extrema complexidade e amplitude do tema. Não obstante, foram escritas com uma adequada fundamentação teórica, embasamento que lhe confere a necessária garantia de verossimilitude em suas diversas e múltiplas afirmações.

Procuramos sempre levar, de forma objetiva até o leitor, uma visão esclarecedora e plausível de alguns dos perigos aos quais as crianças estão expostas cotidianamente nos diversos ambientes que frequentam, com ou sem o aval paterno. Estes ambientes, os mais diversos possíveis, possuem quase sempre brechas, fendas ou canais inesperados que permitem a entrada sub-reptícia de elementos mal intencionados os quais, agindo de forma similar aos predadores implacáveis da floresta, ficarão à espreita de suas presas, em silêncio, o tempo que for necessário, até que, de forma inesperada, estas cairão nas suas garras, sem perdão, inexoravelmente.

As vítimas potenciais, são pequenos e inocentes seres desprotegidos, que nem sempre possuem uma verdadeira noção do perigo que estão correndo. Curiosos, procuram continuamente por respostas a cada uma de suas intermináveis interrogações, respostas que às vezes, ao serem encontradas, geram novas dúvidas, em ciclos que se repetem ad infinitum.

Embora paralisados pelo medo, às vezes superam as barreiras, sedentos de serem partícipes de novas e excitantes experiências. Ser criança é aceitar desafios sem medir consequências. Angustiados, certamente, ao ter que enfrentar uma situação totalmente inesperada, porém permanentemente premidos pela necessidade de aprender e apreender, de tomar para si tudo o que se apresenta como novo, desconhecido, nem sempre desejado, mas pleno de mistério, que lhes é oferecido de mãos abertas, gentilmente, sem censura, sem reproches.

São deixados pelos pais, familiares ou responsáveis em aparente segurança, dentro dos mais elevados níveis de confiança possíveis, em espaços pretensamente blindados ao mal, com aquelas pessoas que, se espera, lhes fornecerão educação e conhecimento, cuidarão de sua saúde e higiene, os alimentarão e resguardarão na ausência dos seus maiores, fato por demais frequente nestes dias atribulados e cheios de compromissos sociais, laborais e profissionais.

Ficam em ambientes considerados fortemente protegidos, com grades, câmeras de vídeo, cercas elétricas, guardas munidos de médios de comunicação de última geração, convenientemente isolados por portas, travas e vidros blindados, pretensamente a salvo dos potenciais perigos que estão presentes no cotidiano de suas vidas, daqueles bandidos transvestidos de mocinhos, das drogas e maldades, das armas, enfim, dessa violência urbana cotidiana que inunda e sufoca cada vez mais nossa sociedade.

Condomínios, escolas, igrejas, clubes, acampamentos, casas de amigos tradicionais, de parentes muito próximos, clínicas de renome, consultórios, academias de arte ou dança, creches, quiçá o próprio quarto, a sala ou o banheiro do lar, naquele inviolável espaço familiar.

Estes são tão somente alguns dos lugares nos quais se deposita essa confiança, deixando ou entregando as crianças, com alegria, sem medo, na certeza de que, logo mais estarão retornando aos nossos braços, sãs e salvas.

Mas, nem sempre isso é uma verdade insofismável. Da mesma forma em que, dentro desses ambientes seguros, as rosas podem nos mostrar toda sua beleza e esplendor, a semente do mal pode ter sido plantada e estar germinando em silêncio. O predador pode encontra-se já oculto na penumbra, em silêncio, acaçapado, afiando suas garras, pronto para dar o bote.

Qual lobo transvestido de avó pode encantar com sua candura, tal qual onírico príncipe que seduz, com o brilho dos seus olhos e a permanente alegria do seu sorriso. A pergunta surge naturalmente: Onde está o lobo mau...?

As armadilhas podem estar prontas, aguardando a oportunidade, montadas na úmbria solidão dos corredores, nos quartos de estudo e nas salas de aula, nos vestiários, parques, bibliotecas e salas de jogos, nos banheiros e dormitórios. Na solidão dos auditórios fechados, nos cinemas e nos templos consagrados. Nas garagens, estacionamentos e guaritas. Nos consultórios, onde se procura a seriedade e integridade do profissional de saúde. Na sala de música e canto, no atelier do mestre pintor...

Sempre que houver uma oportunidade para o mal ser praticado, haverá uma ocasião para praticá-lo e alguém pronto e disposto a tirar proveito disso. Não existe impossível para quem deseja satisfazer seus desejos perversos. Não há barreiras, grades, portas ou muros, luzes ou sombras capazes de impedir a ação de um ser mal-intencionado. O tempo e o silêncio estarão sempre de seu lado.

Muitos de nossos leitores, certamente comentarão para si: tudo isto é balela, papo furado, exagero doentio. Não existe em hipótese nenhuma, este mundo horrível dentro do meu universo pessoal. Meus amigos e colegas são da mais alta confiança. O colégio dos meus filhos é tradicionalmente o melhor e mais qualificado estabelecimento educacional da cidade, seus professores e a diretoria, são irrepreensíveis. Nunca houve um caso sequer de moléstia a uma criança.

Os templos, de cujas cerimônias religiosas participamos nós e todos nossos amigos e familiares, estão a cargo de pessoas maravilhosas, amorosas, cheias de bondade e que cuidam abnegadamente dos pobres, dos anciões e dos menores em situação de risco, que tanto existem nas ruas. Basta participar dos ritos e encontros, conversar com as pessoas, para perceber que esse amor e essa bondade estão presentes em cada ato.

Os consultórios médicos nos quais nossos familiares são tratados pertencem aos mais renomados profissionais de saúde, ou se encontram nas melhores clínicas e hospitais da cidade.

Ninguém, na nossa primorosa família, jamais seria capaz de cometer o menor ato reprochável com qualquer criança que seja, e muito menos com algum dos nossos filhos. Eles são adorados e cobertos de carinho por tios, avós e primos.

Nossos amigos compartilham com suas famílias os melhores e mais felizes momentos de suas vidas conosco, e são todos da mais elevada qualidade humana. É absurdo pensar uma coisa assim. Isso nunca acontecerá com nossos filhos!

Outros, no entanto, ficarão apreensivos e desconfiados. Alguns quiçá, podem até lembrar-se de algum caso acontecido faz certo tempo com vizinhos ou conhecidos, enfim, com os outros.

Finalmente, haverá aqueles, que lendo alguns parágrafos deste texto, permanecerão em silêncio, sentindo um aperto na garganta ao lembrar-se da dor sentida, no corpo e na alma. Estes podem até não mais serem capazes de chorar, pois suas lágrimas estarão represadas pelo terror, nos mais recônditos e obscuros espaços selados da memória.

Não é feito pelo autor, nenhum juízo de valor sobre qualquer opinião, seja ela favorável ou contrária ao conteúdo exposto aqui. Cada pessoa pode e deve ter livre arbítrio para pensar e agir como sua consciência assim o determinar.

Esperamos, no entanto, que ninguém feche os olhos, tampe os ouvidos nem silencie a voz, sem se deter um instante para meditar, e se fazer, em silêncio, uma única pergunta: será isso possível de acontecer? A possível vítima pode estar, neste momento olhando na sua direção, quiçá ao seu lado, sem poder expressar seus medos e angústias, sua dor, seu sofrimento.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

domingo, 25 de abril de 2021

Somente vive quem permanece vivo

 

O medo do desconhecido bloqueia nosso pensamento, nos paralisa, impedindo-nos de fazer escolhas que, frequentemente, podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso, isto é, simbolicamente falando, entre a vida e a morte.[1]

  Em nosso artigo, denominado “Via de porre e via de levare”  consideramos que “Todos nós, como seres humanos, desde a concepção até o último alento, passamos por um processo contínuo de adequação e mudanças, sejam elas orgânicas, psíquicas ou sociais. Vivemos numa permanente construção e aperfeiçoamento do ser, com um objetivo primordial: sobreviver o quanto e o melhor que for possível.”

Quando crianças, sonhamos com a adolescência. As alterações orgânicas mudam nossas atitudes e desejos. Passamos a renegar o passado: “Não sou mais criança...” é frase repetida mil vezes. A vontade de correr supera a força de nossas pernas. A curiosidade se transforma em desafios que nem sempre estamos dispostos a enfrentar. O desejo nos inflama. As múltiplas quedas, aparam as arestas. Nossos corpos e nossas mentes, são dolorosamente ajustados até se transformarem em poderosos e jovens adultos. Avançamos a cada dia, nos apaixonamos, casamos, temos filhos e nossos filhos, retomam os sonhos das crianças. A vida, não tem retornos. Somente é possível avançar.

De forma análoga a uma pintura de alta complexidade artística, o homem desenvolve sua estrutura bio-psico-social por via de porre através do agregado de sucessivas camadas de conhecimentos, experiências e relacionamentos que, a cada instante, são incorporadas como resultante do processo de aprendizado contínuo ao qual estamos permanentemente submetidos. Tintas e cores aplicados ao longo da vida por múltiplos e diferentes artistas: pais, mestres, parentes, amigos, esposos, filhos, netos, enfim, todos e cada um daqueles que em algum momento interagem ou se cruzam em nosso caminho. Essa obra fica, a cada dia, mais perto do seu acabamento final, que coincide com o momento de nossa despedida[2].

A vida é uma construção permanente, porém, para continuar vivos se faz necessário remover obstáculos que bloqueiam a passagem das estruturas que a suportam. É necessário arrancar, por via de levare, na força do martelo e do cinzel, aquelas camadas que nos sufocam e nos aprisionam dentro de um bloco rígido. Não podemos permitir que o medo nos paralise, que o amargo nos envenene ou que o silêncio nos afaste da alegria de viver. Por trás dessas camadas grosseiras, dos cabelos grisalhos ou da pele sem viso, poderemos descobrir a figura suave, brilhante e formosa que permanece escondida no bloco sólido de nossa alma. O ser humano se modela a cada instante, seja por via de porre ou por via de levare. Na suavidade do pincel que dá os tons multicoloridos a nosso ser, ou na força do cinzel e do martelo, arrancando de nós a rigidez da pedra que sufoca nossos sentimentos e nossa alma.

Sigmund Freud disse que o inconsciente é algo que fica escondido em cada um, mas que se manifesta sem sabermos nos comportamentos. Ao ter outras prioridades que não seja você, a mensagem que fica registrada é que você não é tão importante, que não tem tanto valor e que os outros são mais relevantes e dignos da sua atenção e você vira uma personagem secundária na própria vida.
E isso reforça a mensagem de não ser capaz nem do básico por si mesma, cultiva o não merecimento, a insegurança, o autoabandono que provoca um vazio interior, que gera uma ferida na qual nada é capaz de suprir, tendo isso repercutido em todas as áreas da vida.
A pessoa sofre, se envolve em relacionamentos ruins, adquire hábitos compulsivos como comprar muitas roupas sem necessidade por exemplo, em busca de refúgio.[3]

A todo instante e independentemente de nosso tempo de permanência, vulgarmente conhecido como “idade”, somos fortemente influenciados pelas fantasias, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Inconformados pelos fios grisalhos de nossos cabelos, os pintamos de forma nem sempre harmoniosa, seguindo a “tendência atual e retomando o viso da juventude”, sem aceitar que os fios permanecem brancos na sua essência. Utilizamos cremes milagrosas a base de produtos instantaneamente rejuvenescedores para eliminar rugas na pele, sem perceber que que a pele permanece a mesma.  Adquirimos roupas multicoloridas, modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. [...]Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores. [...] sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos. [...]As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria. Devemos aceitar a beleza real, a que nos identifica, àquela que possuímos em nossos corações. Não devemos vestir uma roupa para parecer jovens, mas devemos vesti-la para mostrar que permanecemos jovens, alegres, e orgulhosos de sermos bonitos. É necessário viver a vida, da forma que ela realmente é. Não é a idade que nos torna amargos. São nossas escolhas erradas. Não podemos aceitar o papel de coadjuvantes de nossa própria vida. É necessário sermos permanentes protagonistas. Nossas atitudes devem ser proativas. Nossa prioridade deve estar centrada em nossa felicidade. Devemos viver, para continuar vivos.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 



[1] https://spisandelli.blogspot.com/2020/11/medo-do-desconhecido.html

[2] http://spisandelli.blogspot.com/2020/11/via-di-porre-e-via-di-levare.html

[3] Ana Carolina Rodrigues. https://www.instagram.com/p/CNvqskdBFsT/

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Não haverá segunda vez

Não somente no Brasil, mas em todos os recantos do planeta existem milhares de pessoas que adotam uma posição negacionista comum frente as incontestáveis evidências que comprovam, pela ciência e pela evidência, que o vírus que provocou a pandemia mata pessoas. Em pensamento convergente, incorporam-se a estes sujeitos àqueles que enxergam uma conspiração maliciosa na adoção de medidas estatais para enfrentar os efeitos do Coronavirus assim como outros que contestam, a eficácia das vacinas, o aquecimento global, e outros temas por demais conhecidos.

Multidões de jovens, e não tão jovens, mostram-se incapazes de submeter-se a determinações restritivas das liberdades sociais, não pelo fato de serem inconsequentes, imprudentes, irresponsáveis ou levianos (tanto faz uma definição ou outra), mas como resultado de uma clara postura de denegação (ou renegação).

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a denegação não significa rejeitar ou negar um determinado fato ou situação. Renegar refere-se à recusa da percepção de uma evidência que se impõe no mundo exterior. É a evidência objetiva daquilo que está reprimido no inconsciente do sujeito.

Na denegação impõe-se um não explícito em contraposição a um sim reprimido. Devemos observar que um renegado, não afirma que uma determinada situação não existe, mas sua atitude está em contraposição a essa situação real. A terra é uma bola, porém minha posição está fincada no terraplanismo. Há evidências da esfericidade, porém defenderei a topologia plana.

Ao renegar das evidências aceito, inconscientemente, que a mesma existe. Sua atitude provoca uma profunda clivagem no seu comportamento: sabe da existência de um iminente perigo; a sua percepção do mesmo é concreta, porém, seu comportamento e suas atitudes o negam.

“O fumo mata milhões de pessoas, sei disso, porém, continuo fumando pois me traz prazer”.

Negar a pandemia e seus efeitos passa pela afirmação de que a mesma não existe, que é criação de indivíduos mal intencionados.

Mas como sustentar isso, frente ao caos instalado?

Não há como negar sua existência, rejeitar o óbvio, mostrado de forma permanente e continuada pelos diversos canais de comunicação de massa ao redor do mundo. O mundo em si, a própria humanidade, está frente a um perigo explicito, concreto e generalizado, que dificilmente encontra paralelo na história.

Àquele que denega esconde, nessa negativa, seu medo. Sua postura negacionista, mascara seu temor nas suas atitudes desafiadoras. Projeta, sobre si, uma imagem de força que no seu foro íntimo, não possui. Veste as roupas de super-herói sobre uma estrutura psíquica abalada pelo temor. Não há registros de experiências anteriores no seu subconsciente capazes de sinalizar o perigo de forma consistente. A realidade é visualizada como videogame. Uma realidade “virtual”, onde a vítima é “o outro”. Na sua percepção, os mortos não são seres humanos, mas escores registrados nos contadores estatísticos mostrados em gráficos coloridos e tabelas organizadas nas telas de altíssima definição dos aparelhos eletrônicos.

Existe uma dualidade de opiniões que se contrapõem permanentemente e exercem uma enorme pressão psíquica sobre esses sujeitos. A visão sanitarista, que conclama a população a se proteger, é permanentemente descontruída pela visão economista, que projeta imagens do desastre social resultante do fechamento das fontes de renda tais como comércio, indústria, escolas e similares. A desconstrução da realidade através dos mecanismos de distorção da informação, provocam um efeito de refração da verdade. Aquilo que percebemos não é real. A imagem real está deformada, e essa visão promove mecanismos psíquicos de rejeição dessa realidade.

“Nada irá me acontecer, milhares de pessoas pegaram uma simples gripe, os jogadores do meu time pegaram, passaram 10 dias em casa e estão jogando de novo...”

Frente a uma notícia desfavorável, que ofende ou compromete sua realidade, preferem matar o mensageiro e ignorar os perigos com que a realidade se apresenta.

Nem todas as pessoas reagem desta forma. Há aquelas que mergulham em depressão, aproveitando a oportunidade para se isolar do mundo. Outras são tomadas por angustias indescritíveis ou adotam posturas obsessivas de isolamento e bloqueio, transformando os necessários cuidados em rituais obsessivos de lavagem de mãos, utilização de álcool gel e máscaras protetoras, numa ação de permanente purificação e constrição, querendo se livrar de uma suposta culpabilidade frente ao perigo de serem contaminados. Indiscutivelmente, o ser humano, seja jovem ou maduro, deve conviver continuamente com níveis de insegurança ou incerteza decorrentes do cotidiano. Nada é totalmente seguro nem absolutamente perigoso. Sempre houve e haverá, em diferentes níveis, riscos a serem corridos. Porém, nas atuais circunstâncias, certamente os riscos ultrapassam todos os limites de segurança que possamos estabelecer. Ninguém está livre deles. Podemos, eventualmente, assumir riscos potencialmente menores, ao realizar certas atividades necessárias, atendendo todas as regras de proteção. Fazer compras em um supermercado ou numa farmácia, por exemplo. Faz parte das regras do jogo. Porém, ao participar com dezenas ou centenas de pessoas de uma balada, em um ambiente fechado, compartilhando espaços e utensílios com “conhecidos” ou “desconhecidos”, certamente não estaremos assumindo riscos potencialmente menores, mas jogando a roleta russa com uma arma carregada com 5 balas no tambor, de seis possíveis. Estamos sendo controlados por um mecanismo de massificação, onde as atitudes são adotadas pela identificação com “o outro”.

“Se meus amigos podem, eu posso. Se eles fazem, eu acompanho.”

Perde-se a singularidade racional no coletivo emocional. Não há individualidade de pensamento, avaliação de riscos, receio das consequências.

Marcha-se de forma anestesiada em direção ao caldeirão, sorrindo e desprezando todos os sinais de alerta. Caminha-se em direção ao inimigo, de peito aberto, sorrindo desafiante, na certeza de que nenhum projetil os abaterá.

Não haverá segunda vez. O fogo inimigo é cerrado e altamente eficiente. Só existe alternativa, se aceitamos permanecer na trincheira. Em silêncio. Aguardando pacientemente a luz do sol.          

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A hipocrisia no discurso

Antes de falarmos sobre a hipocrisia no discurso, me permito relatar um acontecimento histórico que certamente marcou um verdadeiro ponto de inflexão no desenvolvimento da humanidade, a qual teve, na sua evolução, momentos nos quais paradigmas solidamente enraizados foram substituídos por outros radicalmente diferentes.

A teoria Geocêntrica, postulada pelo astrônomo grego Claudio Ptolomeu (100 – 168) no início da Era Cristã, foi conceitualmente defendida em seu livro intitulado “Almagesto”. Ptolomeu, como resultado da observação do movimento dos astros no céu, concluiu que a Terra está posicionada no centro do Sistema Solar, e consequentemente os demais astros orbitariam ao redor dela, fixados sobre esferas concêntricas que girariam com diferentes velocidades. O Geocentrismo foi intensamente defendido pela Igreja Católica, pois apresentava diversos aspectos de passagens bíblicas, sendo chamados de hereges, e muitas vezes queimados em fogueiras, aqueles que dela discordavam.

Quatorze séculos se passaram (1.400 anos!), até que essa teoria Geocêntrica fosse contestada pelo matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que propôs uma outra estrutura do Sistema Solar, o Heliocentrismo. Nesta nova, e revolucionária concepção, Copérnico postula que a Terra e os demais planetas se movem ao redor do Sol, sendo este, o verdadeiro centro do Sistema Solar. A sucessão de dias e noites é uma consequência do movimento de rotação da Terra sobre seu próprio eixo. Este modelo (denominado de sistema copernicano), não foi aceito pela Igreja Católica, que adotava a teoria do Geocentrismo, elaborada por Ptolomeu. A Igreja Católica incluiu o livro “Das Revoluções dos Corpos Celestes”, onde Copérnico descrevia sua teoria, no Índex – a lista dos livros proibidos por heresia. O dogmatismo da igreja era tão forte, que questionar a perfeição divina era realmente uma atitude extremamente perigosa, para integridade pessoal.

O astrônomo Galileo Galilei (1564-1642), através de suas observações, foi o primeiro cientista a comprovar, de forma objetiva, que o sistema heliocêntrico de Copérnico estava solidamente fundamentado. Não obstante, em 1633, sob ameaça de excomunhão e morte pela Santa Inquisição, teve que negar formalmente as suas descobertas permanecendo suas convicções inabaladas[1]. 150 anos após a morte de Copérnico, o físico e matemático Isaac Newton (1642-1727) desenvolveu uma base cientifica, baseada em princípios fundamentais da física, para a gravitação dos planetas ao redor do Sol. Foi a comprovação definitiva do heliocentrismo. Apesar de ser comprovada de forma conclusiva, a teoria elaborada por Copérnico só viria a ser aceita pelo Vaticano em 1835, quando o papa Gregório XVI admitiu, e corrigiu, o erro dos seus antecessores. 300 anos se passaram até que a obra “Das Revoluções dos Corpos Celestes” fora retirada da lista dos livros censurados pela Santa Sé.

Este exemplo, extraído da história, está sendo utilizado por mim, não como crítica à Igreja Católica, nem aos Papas. Isso não vem ao caso nem é minha intenção. O objetivo é mostrar que, assim como esta, milhares de outras diversas situações, permeiam a humanidade, contaminando o verdadeiro saber e distorcendo a realidade dos fatos, com discursos falsos e negacionistas, que passam a ser aceitos como verdades incontestáveis.

É o discurso hipócrita, aquele que é afetado por um sentimento louvável que não se tem, que estabelece uma falsa devoção a princípios etéreos, sem sustentação sólida. Construído sobre uma coletânea de ideias e expressões recheadas de imposturas, fingimentos, simulação e falsidades. Verdadeira demonstração de virtudes ou evidências, inexistentes ou antagonistas daquelas que realmente permeiam os sentimentos.

O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar.

Os venenos existem desde os primórdios da existência, e com muita dor e sofrimento, as pessoas aprenderam a reconhece-los e evita-los. Não são perigosos quando usados com sabedoria e bom senso. São úteis e necessários para a própria sobrevivência do ser humano. Antídotos foram descobertos e são utilizados para neutralizar seus efeitos.

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele.

Há duas opções para enfrenta-lo:

A primeira consiste em despreza-lo em favor da verdade, abrindo os olhos a realidade objetiva, rejeitando radicalmente suas propostas e afirmações, arrancar suas raízes e destruir seus frutos e sementes.

A segunda é aceita-lo, e penetrar de mãos dadas na tenebrosa caverna do obscurantismo, dentro da qual dificilmente encontraremos, o caminho de retorno, correndo o risco de permanecer na penumbra para sempre.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.



[1] e pur si muove” é uma locução italiana que significa: “e, contudo, ela move-se!" Esta frase foi pronunciada por Galileu depois de haver sido obrigado pelo Santo Ofício a abjurar da pretendida heresia de que a Terra gira no espaço sobre ele mesma, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 - 2020  https://dicionario.priberam.org/e%20pur%20si%20muove [consultado em 24-12-2020].

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

As fantasias e a realidade

As fantasias permeiam nossas vidas, habitam em nós e determinam nossas atitudes. Não podemos nos isolar delas. São omnipresentes. Não é possível separar o mundo das fantasias do mundo concreto, objetivo. Interferem e deformam nossa percepção da realidade, numa continua e incessante procura de oferecer satisfação imediata aos nossos desejos. Parasitam e dividem nosso eu, se alimentam de nossas angustias.

Como isso é possível? Para que servem as fantasias? Como é possível que nos dominem em tal grau e intensidade? O que são essas tão poderosas e dominantes fantasias?

 

“Uma fantasia é a encenação, no psiquismo, da satisfação de um desejo imperioso que não pode ser saciado na realidade. Observemos, porém, que a fantasia pode, ao contrário, desempenhar o papel de estimulador do desejo, reavivá-lo e aumentar seu ardor. (Nasio, Juan-David, 2007, p.10)”.   

 

As fantasias influenciam continuamente nosso comportamento, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Tingimos os cabelos para ocultar os fios brancos a pesar deles permanecerem brancos na sua essência. Utilizamos cremes para eliminar rugas na pele, adquirimos roupas modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. Adquirimos aparelhos eletrônicos “Top Class”, com infinitos recursos que nunca utilizamos, para poder mostrar que estamos antenados no que há de mais moderno e que estamos surfando na onda mais atual. Utilizamos uma gravata “listrada” porque nos dá um ar mais descontraído e juvenil, adquirimos um carro esportivo e poderoso para impactar o nosso grupo social, enfim, construímos um “eu” paralelo, imaginário, fruto dos devaneios e comandos emanados de nossas fantasias. Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores.

Neste ponto, me permito relatar uma situação que marcou minha vida:

 

Um cabelereiro, que me atendeu durante mais de 20 anos, me perguntou:

- Seu cabelo é totalmente branco, porque não utiliza o produto “X” como xampu, vai escurecer o cabelo progressivamente e lhe dar um aspecto juvenil?

Minha resposta foi imediata:

- Deixe meu cabelo naturalmente branco, como ele é. Demorou 60 anos para ficar assim. Me permita respeita-lo na sua idade.

 

Não estou questionando a elegância, o perfume, o cosmético ou a forma de vestir. Pelo contrário, sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos.

Meu questionamento centra-se na perda total da identidade, como fruto do domínio absoluto de nossas vidas, pelas fantasias.

As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Bibliografia:

 

NASIO, Juan-David. A fantasia. O prazer de ler Lacan. [Tradução, André Telles e Vera Ribeiro] – Rio de Janeiro, Zahar,2007,

domingo, 29 de novembro de 2020

Via "di porre" e via "di levare"

 Todos nós, como seres humanos, desde a concepção até o último alento, passamos por um processo contínuo de adequação e mudanças, sejam elas orgânicas, psíquicas ou sociais. Vivemos numa permanente construção e aperfeiçoamento do ser, com um objetivo primordial: sobreviver o quanto e o melhor que for possível.

Sigmund Freud, no seu trabalho “Sobre a psicoterapia” (1905)[1] faz referência a duas expressões utilizadas por Leonardo da Vinci, ao referir-se às belas artes: “A pintura opera por via di porre, pois aplica uma substância, a tinta (formada por partículas de cor) onde nada existia antes, na tela incolor. A escultura, contudo, processa-se por via de levare, visto que retira do bloco de pedra tudo o que oculta a superfície da estatua nele contida.”

Pedindo licença e desculpas a estas duas imensas personalidades da humanidade, utilizarei essas expressões para falar sobre a construção e aperfeiçoamento do ser humano, mencionada anteriormente.

De forma análoga a uma pintura de alta complexidade artística, o homem desenvolve sua estrutura bio-psico-social por via de porre através do agregado de sucessivas camadas de conhecimentos, experiências e relacionamentos que, a cada instante, são incorporadas como resultante do processo de aprendizado contínuo ao qual estamos permanentemente submetidos. Tintas e cores aplicados ao longo da vida por múltiplos e diferentes artistas: pais, mestres, parentes, amigos, esposos, filhos, netos, enfim, todos e cada um daqueles que em algum momento interagem ou se cruzam em nosso caminho.

Essa obra fica, a cada dia, mais perto do seu acabamento final, que coincide com o momento de nossa despedida.

Porém, como seres humanos, jamais estaremos completos, se a estrutura bio-psico-social já mencionada, não for cinzelada cuidadosamente por via de levare. Devemos arrancar, camada após camada, e modelar, a pedra que nos sufoca, que nos aprisiona dentro de um bloco rígido, que nos paralisa. Martelo e cinzel devem retirar de nossa alma o ódio. Quebrar o bloco do rancor. Somos imobilizados pelo medo, e dele devemos nos livrar. O amargo nos envenena. O silêncio nos afasta. São camadas e mais camadas que conformam a pedra no seu estado mais bruto. Não há, nela, brilho, suavidade, forma. Tudo é áspero e agudo.

Somente depois de retiradas essas camadas grosseiras, poderemos descobrir a figura suave, brilhante e formosa, escondida no bloco sólido de nossa alma.

O ser humano deve ser ininterruptamente construído, passo a passo, por via de porre e por via de levare. Utilizando a suavidade do pincel que colore e dá vida a nosso ser, e a força do cinzel e martelo, que retira de nós a rigidez da pedra que sufoca nossos sentimentos e nossa alma.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.



[1] Freud, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud; edição standard brasileira. Volume VII. Apêndice: Sobre a Psicoterapia. (p. 247). Rio de Janeiro. Imago, 1996.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pessoas tóxicas: O amigo derrotista

Quando jovens, eram dois amigos inseparáveis. Projetos, sonhos e aventuras faziam parte do dia-a-dia de ambos. Tudo era possível. Não havia barreiras intransponíveis. As metas eram ambiciosas, os caminhos retos e lisos. Mas a realidade cobrou seu preço. As coisas não saíram como esperado. Muitas esperanças se diluíram, perderam a cor do sucesso e alguns prejuízos chegaram a reduzir a capacidade de crescer. Os caminhos divergiram e tomaram rumos diferentes. A pesar de tudo, seus sonhos permanecem vivos, existem, no seu âmago, objetivos a espera de serem alcançados. Sua vontade de lutar, crescer e ser bem sucedido continuam lhe impulsionando e alimentando essa chama acessa dentro do seu coração.

Não podemos dizer a mesma coisa do seu amigo. Hoje, não mais está do seu lado. Ele jogou a toalha. Os sonhos, são agora, para ele, pesadelos. Sua visão é turva, cinzenta, sem brilho. Só consegue enxergar dificuldades, barreiras, pedras no caminho. Nada pode dar certo para ele. É uma pessoa amargurada, que só consegue ver as dificuldades em àquilo que pode ser feito. Transmite insegurança nas suas palavras, semeia dúvidas. Transformou-se numa pessoa tóxica. Que contamina os sonhos, que envenena nossa alegria de viver, de lutar. Ele pode, até lhe convencer de que o risco a correr não vale a pena, que é melhor desistir agora, para não se arrepender depois.    

Não estamos falando de alguém que, com bom senso, nos alerta de eventuais perigos. Essa pessoa sempre é bem-vinda. Estamos falando daquele que se dizendo nosso amigo, nos bloqueia, nos inunda de sentimentos derrotistas, negativos, que rouba nossa energia, que permanece na zona de conforto e nos arrasta para a inação.

É necessário afastar essa amizade tóxica da sua vida. Não permita que esse negativismo permeie seu pensamento. Não compartilhe seus sonhos com ele, pois correrá o risco de vê-los transformados em cinzas, que, junto com sua alegria e esperança se perderão no horizonte nebuloso do fracasso. Continue sozinho, lutando, sonhando. O sucesso estará do seu lado. A vida nos cobra seu preço. Para ter sucesso, é necessário pagar para ver.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

Pessoas tóxicas: O amigo (ou parente) autorreferente

 Não é difícil encontrar em nossa relação de amizades ou de familiares, pessoas que, ao relatarmos um determinado acontecimento, imediatamente passam a nos contar situações similares, supostamente vividas por eles. Ao descrevermos um acidente doméstico comum, (uma labareda provocada por um pingo de água numa frigideira), lembram um princípio de incêndio, acontecido na própria cozinha que, afortunadamente, foi debelado devido a rápida e valente intervenção de um familiar que arriscou tudo para conter o fogo. Se contamos sobre um determinado mal-estar sentido, imediatamente recebemos o relato de um outro mal-estar sentido por eles, com agravantes de consultas e tratamentos exclusivos e emergenciais realizados, e assim por diante.

São pessoas autorreferentes, portadoras de uma personalidade narcisista heliocêntrica. Puxam os acontecimentos para si, da mesma forma que o Sol atrai os planetas gravitacionalmente, obrigando-os a girar no seu entorno. Demonstram interesse pelo nosso relato, não por empatia ou solidariedade, mas para fundamentar e justificar o evento similar (ou frequentemente maior) acontecido com eles. Podemos identificar um padrão de grandiosidade invasiva nas suas atitudes, uma necessidade explícita de admiração e reconhecimento. Frequentemente, os acontecimentos por eles relatados são revestidos de fantasias, situações irreais que potencializam os efeitos. Apresentam uma verdadeira sensibilidade exacerbada pela necessidade de reconhecimento, pelo outro, da autoria dos fatos. Sentem-se protagonistas permanentes, nunca espectadores atentos e solidários. Requerem nossa atenção, mostram-se autossuficientes, esperam tratamento especial, diferencial. São arrogantes e apresentam um comportamento autorreferente. As relações interpessoais são severamente comprometidas pela desconfiança resultante sobre a veracidade dos fatos relatados, da existência de uma necessidade explícita e permanente de admiração e pela falta de reconhecimento aos sentimentos e sensibilidade emocional das outras pessoas. Frequentemente a inveja se faz presente, acompanhada de uma necessidade de ser percebido como superior, embora não apresente evidências de realizações ou talentos especialmente destacáveis.

Esses amigos (ou parentes) são pessoas venenosas, provocam desconforto, mal-estar.

Acabam com o prazer de um relacionamento harmonioso e sincero, contaminando o ambiente com suas atitudes egocêntricas.

Nada agregam à nossa vida, a não ser desconfiança e receio de estar sendo enganados.

Por esse motivo, devemos evitar esse tipo de relação. Não haverá frutos saborosos resultantes dela. Somente desconforto e sabor azedo na boca.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.