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sábado, 18 de dezembro de 2021

Onde está o lobo mau...?

 Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. O Autor

A sociedade contemporânea passa por mudanças contínuas, radicais e imprevistas, as quais se processam de tal forma aceleradas que frequentemente nos resulta praticamente impossível acompanhá-las na sua totalidade, visto o ritmo frenético, quase torrencial com que aparecem. Uma imensa maioria, acontece, evolui e desaparece sem que sequer tomemos, ao menos, conhecimento de sua existência. As pessoas, seus negócios, interesses, desejos e relacionamentos se multiplicam, desdobram, modificam, fusionam e/ou adotam as formas mais diversas possíveis. Os mecanismos, regras, normas e canais de comunicação e interação social são mutantes, interligados, multiformes. Se apresentam em multiplataformas e obtém alcance planetário quase imediato. As fronteiras e limitações físicas são abolidas em nome do progresso, da globalização e da liberdade de expressão. Atitudes éticas e comportamentais tradicionais são contestadas e substituídas por novas sem terem previamente passado pelo recomendável crivo de um julgamento crítico. Muitas destas novas atitudes possuem regras normativas (quando as possuem) cujos valores nem sempre se fundamentam numa razão ou estruturação sólida e consistente que justifiquem a mudança. As vezes são simples mudanças de tons, das mesmas cores. Outras, no entanto são radicais, a ponto de estabelecer verdadeiras revoluções estruturais na arquitetura da sociedade. 

As cidades, hoje transformadas em megalópoles, gigantescos e massivos conglomerados urbanos, padecem com suas ruas saturadas de veículos, seus enormes centros comerciais e imensas torres de cimento, aço e cristal que crescem e se expandem a cada instante, em todos os sentidos possíveis. Sempre maior, mais largo, mais alto, mais profundo, procurando utopicamente um pseudo-isolamento físico alienado. Nesse espaço privativo e isolado se procura, curiosamente e de todas as formas possíveis, permanecer continuamente interligado com o resto do mundo.  As distâncias se encurtam de tal forma, que é possível tomar o café da manhã em Fortaleza, almoçar em Brasília e jantar em Buenos Aires, tudo num mesmo dia. Paradoxalmente, um verdadeiro caos relacional, estabelece suas próprias regras, e as pessoas mergulham a cada dia, de forma mais e mais profunda nele. Nada permanece imutável na vida dos seres humanos. Tudo é permanente até ser substituído. A relação familiar é descartável! O amor eterno de hoje se transforma em ódio amanhã. Mata-se um filho porque incomoda no relacionamento entre os pais. Adota-se um animal, e abandona-se uma criança no depósito de lixo.

Certamente haverá pessoas que, levantarão suas vocês de indignação ao ler estas palavras. Outras reconhecerão, que de uma forma ou de outra já participaram de situações similares. Muitas, sem dúvida, as rejeitarão, taxando-as de exageradas e mentirosas.

Embora relevantes e sempre respeitadas por mim, essas opiniões individuais e divergentes não passam disso, pois não há possibilidades de fugir da realidade. Uma realidade que está presente no dia-a-dia, e vivenciada por nós, e somos parte inseparável dela. Não obstante essas avassaladoras mudanças, existem múltiplos elementos ocultos que fazem parte dessa sociedade em permanente e dolorosa revolução, que continuam solidamente enraizados nas suas entranhas, nos alicerces de sua estrutura, desde o início dos tempos e que, embora alterando continuamente sua roupagem, jamais deixaram de estar presentes, comprovando com sua presença que a pesar das mudanças, muitas coisas continuam iguais.

Estamos nos referindo a uma praga universal que se encontra entre as maiores e mais dolorosas mazelas sociais: a pedofilia, o abuso sexual de crianças. Ela se espalha em silêncio, se ramifica, muda de forma, de cor e de tamanho. É contaminante e parasita suas vítimas, sugando delas o sorriso, a alegria de viver e deixando nelas cicatrizes indeléveis que as marcarão para sempre.

Não obstante, e a pesar da gravidade da situação, podemos considerar que nem tudo está perdido. Pandora, na sua angustiante constatação do erro cometido, ainda tentou fechar a ânfora divina, mas era tarde demais: tudo tinha vazado dela, com a exceção da "esperança", que permaneceu presa junto a sua borda. Essa esperança se encontra hoje alojada em nossos corações e assim deve permanecer sempre, viva neles. Esta é a única forma de assegurar que o homem não será derrotado pelo mal, sucumbindo às dores e aos sofrimentos da vida.

Este trabalho não é uma denúncia, nem uma receita para julgar o pedófilo nem um manifesto destinado a acabar com a pedofilia, mas uma forma de trazer à tona uma verdade, nem sempre evidente: a necessidade de exercer uma paternidade responsável, requisito essencial para a sobrevivência do ser humano. Sermos pais responsáveis envolve muito mais que procriação, alimentação e satisfação de desejos de consumo dos filhos. É a tarefa mais nobre e complexa que o ser humano deve enfrentar, embora nem sempre sejamos perfeitamente conscientes disso. Essa paternidade requer como obrigação, a necessidade de olhar para nossos filhos com amor, e sermos capazes de abdicar de tudo aquilo que seja banal em nome desse amor.

Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. Ensinar e educar são coisas diferentes. A escola pode assumir a responsabilidade de ensinar, más a educação é um encargo que corresponde exclusivamente ao grupo familiar. É uma tarefa indelegável, impossível de ser terceirizada. Essa educação inclui, no seu âmago o cuidado pela prevenção da integridade física e mental das crianças. Deixa-la de lado, significa abdicar da função paterna.

Esperamos que a leitura deste texto permita acender uma luz na úmbria caverna do caos, e permita nos orientarmos, para que, junto aos nossos filhos encontremos o melhor caminho em direção à saída.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Não haverá segunda vez

Não somente no Brasil, mas em todos os recantos do planeta existem milhares de pessoas que adotam uma posição negacionista comum frente as incontestáveis evidências que comprovam, pela ciência e pela evidência, que o vírus que provocou a pandemia mata pessoas. Em pensamento convergente, incorporam-se a estes sujeitos àqueles que enxergam uma conspiração maliciosa na adoção de medidas estatais para enfrentar os efeitos do Coronavirus assim como outros que contestam, a eficácia das vacinas, o aquecimento global, e outros temas por demais conhecidos.

Multidões de jovens, e não tão jovens, mostram-se incapazes de submeter-se a determinações restritivas das liberdades sociais, não pelo fato de serem inconsequentes, imprudentes, irresponsáveis ou levianos (tanto faz uma definição ou outra), mas como resultado de uma clara postura de denegação (ou renegação).

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a denegação não significa rejeitar ou negar um determinado fato ou situação. Renegar refere-se à recusa da percepção de uma evidência que se impõe no mundo exterior. É a evidência objetiva daquilo que está reprimido no inconsciente do sujeito.

Na denegação impõe-se um não explícito em contraposição a um sim reprimido. Devemos observar que um renegado, não afirma que uma determinada situação não existe, mas sua atitude está em contraposição a essa situação real. A terra é uma bola, porém minha posição está fincada no terraplanismo. Há evidências da esfericidade, porém defenderei a topologia plana.

Ao renegar das evidências aceito, inconscientemente, que a mesma existe. Sua atitude provoca uma profunda clivagem no seu comportamento: sabe da existência de um iminente perigo; a sua percepção do mesmo é concreta, porém, seu comportamento e suas atitudes o negam.

“O fumo mata milhões de pessoas, sei disso, porém, continuo fumando pois me traz prazer”.

Negar a pandemia e seus efeitos passa pela afirmação de que a mesma não existe, que é criação de indivíduos mal intencionados.

Mas como sustentar isso, frente ao caos instalado?

Não há como negar sua existência, rejeitar o óbvio, mostrado de forma permanente e continuada pelos diversos canais de comunicação de massa ao redor do mundo. O mundo em si, a própria humanidade, está frente a um perigo explicito, concreto e generalizado, que dificilmente encontra paralelo na história.

Àquele que denega esconde, nessa negativa, seu medo. Sua postura negacionista, mascara seu temor nas suas atitudes desafiadoras. Projeta, sobre si, uma imagem de força que no seu foro íntimo, não possui. Veste as roupas de super-herói sobre uma estrutura psíquica abalada pelo temor. Não há registros de experiências anteriores no seu subconsciente capazes de sinalizar o perigo de forma consistente. A realidade é visualizada como videogame. Uma realidade “virtual”, onde a vítima é “o outro”. Na sua percepção, os mortos não são seres humanos, mas escores registrados nos contadores estatísticos mostrados em gráficos coloridos e tabelas organizadas nas telas de altíssima definição dos aparelhos eletrônicos.

Existe uma dualidade de opiniões que se contrapõem permanentemente e exercem uma enorme pressão psíquica sobre esses sujeitos. A visão sanitarista, que conclama a população a se proteger, é permanentemente descontruída pela visão economista, que projeta imagens do desastre social resultante do fechamento das fontes de renda tais como comércio, indústria, escolas e similares. A desconstrução da realidade através dos mecanismos de distorção da informação, provocam um efeito de refração da verdade. Aquilo que percebemos não é real. A imagem real está deformada, e essa visão promove mecanismos psíquicos de rejeição dessa realidade.

“Nada irá me acontecer, milhares de pessoas pegaram uma simples gripe, os jogadores do meu time pegaram, passaram 10 dias em casa e estão jogando de novo...”

Frente a uma notícia desfavorável, que ofende ou compromete sua realidade, preferem matar o mensageiro e ignorar os perigos com que a realidade se apresenta.

Nem todas as pessoas reagem desta forma. Há aquelas que mergulham em depressão, aproveitando a oportunidade para se isolar do mundo. Outras são tomadas por angustias indescritíveis ou adotam posturas obsessivas de isolamento e bloqueio, transformando os necessários cuidados em rituais obsessivos de lavagem de mãos, utilização de álcool gel e máscaras protetoras, numa ação de permanente purificação e constrição, querendo se livrar de uma suposta culpabilidade frente ao perigo de serem contaminados. Indiscutivelmente, o ser humano, seja jovem ou maduro, deve conviver continuamente com níveis de insegurança ou incerteza decorrentes do cotidiano. Nada é totalmente seguro nem absolutamente perigoso. Sempre houve e haverá, em diferentes níveis, riscos a serem corridos. Porém, nas atuais circunstâncias, certamente os riscos ultrapassam todos os limites de segurança que possamos estabelecer. Ninguém está livre deles. Podemos, eventualmente, assumir riscos potencialmente menores, ao realizar certas atividades necessárias, atendendo todas as regras de proteção. Fazer compras em um supermercado ou numa farmácia, por exemplo. Faz parte das regras do jogo. Porém, ao participar com dezenas ou centenas de pessoas de uma balada, em um ambiente fechado, compartilhando espaços e utensílios com “conhecidos” ou “desconhecidos”, certamente não estaremos assumindo riscos potencialmente menores, mas jogando a roleta russa com uma arma carregada com 5 balas no tambor, de seis possíveis. Estamos sendo controlados por um mecanismo de massificação, onde as atitudes são adotadas pela identificação com “o outro”.

“Se meus amigos podem, eu posso. Se eles fazem, eu acompanho.”

Perde-se a singularidade racional no coletivo emocional. Não há individualidade de pensamento, avaliação de riscos, receio das consequências.

Marcha-se de forma anestesiada em direção ao caldeirão, sorrindo e desprezando todos os sinais de alerta. Caminha-se em direção ao inimigo, de peito aberto, sorrindo desafiante, na certeza de que nenhum projetil os abaterá.

Não haverá segunda vez. O fogo inimigo é cerrado e altamente eficiente. Só existe alternativa, se aceitamos permanecer na trincheira. Em silêncio. Aguardando pacientemente a luz do sol.          

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Hipocrisia e Pensamento Esquizofrênico.

Ao apagar das luzes do ano de 2020, mais precisamente em 28 de dezembro, realizamos uma postagem na qual discorremos sobre o Discurso Hipócrita . Nesse espaço afirmamos:

 O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar. (Pisandelli, 2020).

 

Pensar uma coisa, e dizer outra, é comportamento determinante daqueles que utilizam a hipocrisia como mecanismo de interlocução com os outros. Afirmamos, ainda:

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele. (Pisandelli, 2020).

 

Embora, à utilização da hipocrisia na dialética de uma relação seja altamente tóxica para as pessoas, e suas consequências sejam frequentemente evidenciadas através da ruptura conflitiva da mesma, podemos agregar um fator agravante que potencializa negativamente essa atitude. Estamos nos referindo à incorporação de um conteúdo esquizofrênico a esse discurso.

Para melhor entender nosso ponto de vista, devemos primeiramente considerar que a esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que se manifesta, geralmente no final da adolescência e o início da vida adulta. É uma doença crônica, de natureza muito complexa e que, sendo identificada, exige tratamento médico, contínuo e por toda a vida. Não é uma doença adquirida, mas um transtorno de origem estrutural, resultante de uma alteração cerebral que dificulta a realização de um julgamento correto sobre a realidade, proporciona a produção de pensamentos simbólicos divergentes e abstratos e promove a elaboração de complexas respostas emocionais em determinadas situações. A origem do termo Esquizofrenia se encontra nas raízes gregas schizo (cindir, dividir) e phren (mente), simbolizando o fato de que as funções mentais (pensamento, raciocínio e outras) se encontrariam divididas naqueles pacientes acometidos desse distúrbio.

Ao falar do conteúdo esquizofrênico no discurso não pretendemos estabelecer um prognóstico de esquizofrenia para o discursante, mas incorporar aos elementos que compõem seu pensamento, àqueles núcleos que caracterizam uma posição esquizofrênica frente ao outro. Neste aspecto, vemos que o delírio, quando inserido nas linhas de raciocínio decorrentes da forma como o pensamento está captando a realidade e determinando as críticas sobre a mesma, introduz esse conteúdo esquizofrênico mencionado acima. Esse discurso se alimenta, nestas circunstâncias, de entendimentos diferentes dessa realidade, incorporando e alicerçando as crenças e convicções em propostas, fatos e situações que não são compartilhadas pelas outras pessoas devido à total falta de coerência com a percepção coletiva. Contaminado pelo raciocínio esquizofrênico, o autor adota estratégias ou captura conceitos específicos nos fatos que estão acontecendo à sua volta, extraindo deles conclusões irracionais, que contrastam com a realidade, distorcem a objetividade e promovem uma nova estrutura de pensamento baseada em devaneios e afirmações que confrontam com as evidências objetivas.

A toxicidade do discurso hipócrita se potencializa ao incorporar a vertente esquizofrênica multiplicando, desta forma, seu poder destrutivo. É aceito como alternativa de pensamento por aquelas pessoas que, frente a questionamentos não respondidos, procuram saídas para suas angústias e incertezas. Contamina e se espalha com incontrolável energia. Distorce a realidade e deturpa a verdade, a ponto de substituí-la. Sua força é avassaladora, porém, seu conteúdo não é lançado a esmo, solto no espaço como nuvem impulsionada ao sabor dos ventos. Possui uma estrutura vetorial claramente estabelecida: Tem origem, intensidade, direção e sentido. Quando somados, outros pensamentos similares se potencializam incorporando e equalizando seus conteúdos, gerando uma ação mais contundente e eficaz.

Somente há uma força capaz de detê-lo. A força da razão e da objetividade. A não aceitação dos devaneios frente a realidade objetiva. Não haverá sucesso no confronto direto. Somente uma percepção firme e serena da realidade, frente ao delírio, permitirá derrotar sua força. Na batalha da razão não há espaço para o discurso hipócrita esquizofrênico. O combate deve ser travado na sua origem, a semente deve ser destruída, antes de germinar. Se as raízes penetrarem no solo fértil, corremos o risco de sermos asfixiados por elas.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Referencia

PISANDELLI, Sergio Pedro. A hipocrisia no discurso.  http://spisandelli.blogspot.com/2020/12/a-hipocrisia-no-discurso.html. Acessado em 24/03/2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Alquimia 5G– Uma prática cotidiana

Alquimia é uma prática baseada no misticismo, que teve seu auge durante a Idade Média (século V até século XV) e se estendeu até grande parte da Idade Moderna (século XV até século XVIII, que finda com a Revolução Francesa de 1789), incorporando nas suas técnicas os conhecimentos relativos às ciências, artes e magia existentes nessas épocas. Entre seus principais objetivos se encontravam a obtenção do elixir da vida, que garantiria a imortalidade e cura das doenças do corpo, e a busca da pedra filosofal, que permitiria a transmutação de metais comuns como chumbo e estanho em ouro. Podemos inferir que esses objetivos proporcionariam ao ser humano alcançar a imortalidade e a riqueza infinita.

Na Idade Contemporânea, a ciência e as modernas tecnologias, tem promovido de forma intensa o aparecimento de novos alquimistas da razão e do saber, poderosos magos da comunicação que, utilizando-se do poder, alcance e penetração incomensuráveis dos seus equipamentos, os utilizam como uma nova pedra filosofal, cuja mais importante propriedade consiste em transformar a realidade concreta e objetiva, regida pela verdade, em espaços virtuais paralelos onde essa realidade pode ser manipulada, distorcida a vontade, e substituída por esquemas pré-determinados, moldados a formas e interesses nem sempre em sintonia com essa realidade concreta.

Esses modernos alquimistas não improvisam nas suas práticas. Possuem técnicas altamente desenvolvidas e comprovadamente eficazes, testadas e aprimoradas, dia após dia. São mestres da comunicação, doutores em dialética. São metódicos e profissionais. Nada fica ao azar. Àquilo que pode parecer absurdo para algumas mentes mais esclarecidas, passa a ser assimilado como verdade por milhares de outras mentes, assimilado e compartilhado, acreditado e defendido, a ponto de provocar mudanças comportamentais e atitudes desafiadoras, conflitivas e agressivas, que resultam em negação da realidade, segregação e conflitos entre pessoas, famílias, grupos e comunidades.

A nova pedra filosofal – sua estrutura

1)    O moderno alquimista da informação começa com a escolha de um assunto simples, único, concreto e relevante, de elevada importância para a comunidade. Este assunto passa a ser tema focal, objeto concentrador do pensamento. É definido como o inimigo a ser derrotado.

2)    A seguir procura demonstrar como e de que forma este assunto, impacta na comunidade. Compara um “antes dele” perfeito e harmônico com um presente e futuro sombrio e contaminado por esse assunto.

3)    Realiza a transposição de diversos outros males e prejuízos para o assunto escolhido. O tal do assunto passa a ser responsável por todas as mazelas e dores presentes.

4)    Incrementa sua importância. Exagera seu verdadeiro potencial promovendo sua transformação em fonte de diversos problemas e desgraças.

5)    Transforma seus efeitos em coisas torpes, de índole maléfica. O assunto passa a ser origem do mal.

6)    São divulgadas “noticias” e declarações de “fontes confiáveis” e de indivíduos “reconhecidos” confirmando o assunto e seus maléficos efeitos.

7)    A comunicação se transforma em um verdadeiro bombardeio de novas notícias e “novidades” sobre o mesmo assunto. Replica-se a informação de forma exaustiva. Multiplica-se por mil vezes mil.

8)    Promovem-se novas interpretações de especialistas, de “experts”, sempre direcionadas a ratificar o dano provocado pelo assunto escolhido.

9)    Tudo àquilo que não estiver de acordo com a força maléfica desse assunto, é escondido, ignorado, dissimulado, desmentido.

10)Procura-se, no passado situações onde o assunto possa ser aplicado, e utilizam-se estas situações para potencializa-lo.

11)Procura-se formar comunidades com pensamento convergente, com interesses comuns, para que esse assunto seja difundido, introjetado em outras comunidades, de forma exaustiva, até ser aceito como nova verdade.

O objetivo da transmutação, finalmente é alcançado. O moderno alquimista consegue transformar chumbo e estanho em reluzente ouro, admirado e cobiçado por todos àqueles que tiveram seu pensamento modificado pela magia da comunicação alquímica.

A mentira se sobrepõe a realidade, ao verosímil. Transmuta-se em nova verdade, a qual é replicada, triplicada, multiplicada. Invade e parasita nossas mentes até que, sugando a seiva que alimenta a razão e a evidência, termina por fincar suas raízes muito profundamente, no mais íntimo de nossos corações e mentes. Passamos a ser escravos da mentira. Somos parasitados por ela.

Para nossa esperança, existe um antidoto para este poderoso e corrosivo veneno. O respeito à verdade, o desprezo pela ignomínia. A rejeição sumária das práticas alquímicas transformadoras da verdade. Isso depende somente de uma atitude proativa de nossa parte: procurar e respeitar permanentemente a verdade, rejeitando qualquer proposta utópica de transformações alquímicas da realidade.  

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

   

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A hipocrisia no discurso

Antes de falarmos sobre a hipocrisia no discurso, me permito relatar um acontecimento histórico que certamente marcou um verdadeiro ponto de inflexão no desenvolvimento da humanidade, a qual teve, na sua evolução, momentos nos quais paradigmas solidamente enraizados foram substituídos por outros radicalmente diferentes.

A teoria Geocêntrica, postulada pelo astrônomo grego Claudio Ptolomeu (100 – 168) no início da Era Cristã, foi conceitualmente defendida em seu livro intitulado “Almagesto”. Ptolomeu, como resultado da observação do movimento dos astros no céu, concluiu que a Terra está posicionada no centro do Sistema Solar, e consequentemente os demais astros orbitariam ao redor dela, fixados sobre esferas concêntricas que girariam com diferentes velocidades. O Geocentrismo foi intensamente defendido pela Igreja Católica, pois apresentava diversos aspectos de passagens bíblicas, sendo chamados de hereges, e muitas vezes queimados em fogueiras, aqueles que dela discordavam.

Quatorze séculos se passaram (1.400 anos!), até que essa teoria Geocêntrica fosse contestada pelo matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que propôs uma outra estrutura do Sistema Solar, o Heliocentrismo. Nesta nova, e revolucionária concepção, Copérnico postula que a Terra e os demais planetas se movem ao redor do Sol, sendo este, o verdadeiro centro do Sistema Solar. A sucessão de dias e noites é uma consequência do movimento de rotação da Terra sobre seu próprio eixo. Este modelo (denominado de sistema copernicano), não foi aceito pela Igreja Católica, que adotava a teoria do Geocentrismo, elaborada por Ptolomeu. A Igreja Católica incluiu o livro “Das Revoluções dos Corpos Celestes”, onde Copérnico descrevia sua teoria, no Índex – a lista dos livros proibidos por heresia. O dogmatismo da igreja era tão forte, que questionar a perfeição divina era realmente uma atitude extremamente perigosa, para integridade pessoal.

O astrônomo Galileo Galilei (1564-1642), através de suas observações, foi o primeiro cientista a comprovar, de forma objetiva, que o sistema heliocêntrico de Copérnico estava solidamente fundamentado. Não obstante, em 1633, sob ameaça de excomunhão e morte pela Santa Inquisição, teve que negar formalmente as suas descobertas permanecendo suas convicções inabaladas[1]. 150 anos após a morte de Copérnico, o físico e matemático Isaac Newton (1642-1727) desenvolveu uma base cientifica, baseada em princípios fundamentais da física, para a gravitação dos planetas ao redor do Sol. Foi a comprovação definitiva do heliocentrismo. Apesar de ser comprovada de forma conclusiva, a teoria elaborada por Copérnico só viria a ser aceita pelo Vaticano em 1835, quando o papa Gregório XVI admitiu, e corrigiu, o erro dos seus antecessores. 300 anos se passaram até que a obra “Das Revoluções dos Corpos Celestes” fora retirada da lista dos livros censurados pela Santa Sé.

Este exemplo, extraído da história, está sendo utilizado por mim, não como crítica à Igreja Católica, nem aos Papas. Isso não vem ao caso nem é minha intenção. O objetivo é mostrar que, assim como esta, milhares de outras diversas situações, permeiam a humanidade, contaminando o verdadeiro saber e distorcendo a realidade dos fatos, com discursos falsos e negacionistas, que passam a ser aceitos como verdades incontestáveis.

É o discurso hipócrita, aquele que é afetado por um sentimento louvável que não se tem, que estabelece uma falsa devoção a princípios etéreos, sem sustentação sólida. Construído sobre uma coletânea de ideias e expressões recheadas de imposturas, fingimentos, simulação e falsidades. Verdadeira demonstração de virtudes ou evidências, inexistentes ou antagonistas daquelas que realmente permeiam os sentimentos.

O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar.

Os venenos existem desde os primórdios da existência, e com muita dor e sofrimento, as pessoas aprenderam a reconhece-los e evita-los. Não são perigosos quando usados com sabedoria e bom senso. São úteis e necessários para a própria sobrevivência do ser humano. Antídotos foram descobertos e são utilizados para neutralizar seus efeitos.

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele.

Há duas opções para enfrenta-lo:

A primeira consiste em despreza-lo em favor da verdade, abrindo os olhos a realidade objetiva, rejeitando radicalmente suas propostas e afirmações, arrancar suas raízes e destruir seus frutos e sementes.

A segunda é aceita-lo, e penetrar de mãos dadas na tenebrosa caverna do obscurantismo, dentro da qual dificilmente encontraremos, o caminho de retorno, correndo o risco de permanecer na penumbra para sempre.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.



[1] e pur si muove” é uma locução italiana que significa: “e, contudo, ela move-se!" Esta frase foi pronunciada por Galileu depois de haver sido obrigado pelo Santo Ofício a abjurar da pretendida heresia de que a Terra gira no espaço sobre ele mesma, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 - 2020  https://dicionario.priberam.org/e%20pur%20si%20muove [consultado em 24-12-2020].