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quinta-feira, 17 de março de 2022

As palavras, úteis ou fúteis?

 Existem momentos nos quais é necessário parar por alguns instantes para refletir sobre certos acontecimentos que afetam nosso dia a dia e, consequentemente, de uma forma ou de outra, nossa vida. Me refiro ao valor verdadeiro de tudo aquilo que, a cada momento recebemos como informação, através de palavras e mensagens enviados pelos médios de comunicação disponíveis.

Como ponto de partida, me permito retornar um pouco no tempo, até 16 de novembro de 2020, quando publiquei neste blog um texto onde foram tecidos alguns comentários sobre “O poder da palavra”. Traduzimos nossas ideias com os seguintes conceitos, que permanecem atuais:

 

A palavra, como elevada forma de expressar os pensamentos, tem a capacidade de tornar transparentes os sentimentos do ser humano e adotam a cor, o brilho e o sabor das emoções com as quais são proferidas.

Nos aparece encarnada na explosão da ira, celeste nas preces, rosa no canto maternal. Brilhante quando elogia, opaca-se numa calunia. Doce no afago, se azeda na crítica. Amorosa no abraço, sensual na expressão, libidinosa na resposta, assume o papel de mensageiro das emoções.

Possui afiadas bordas que provocam profundas feridas quando proferida de forma insensata, mas pode também, ser portadora do bálsamo delicado que cicatriza os cortes.

A palavra é arma e redenção, é ofensa e compreensão; é instrumento, objeto, recipiente e conteúdo. É poderosa. Marca, deixa rastros. O Ser encarna-se através da palavra, da mesma forma que o Poder e o Querer.

Sendo assim, tão valiosa e volúvel, todos os cuidados possíveis devem ser tomados antes de usá-la. Vale muito mais uma palavra silenciada na esperança de uma reconciliação, que uma torrente verbal avassaladora despejada com ódio no calor de uma disputa. (Pisandelli, 2020) [1]

 As palavras podem estar impregnadas de valor, de significado e relevância. Podem ser comparadas a um vetor de impulso que através de sua ação, proporciona oportunidades de melhoria e crescimento nas relações interpessoais. São aquelas palavras que transportam, no seu seio, energias positivas, boas intenções e sobre tudo um verdadeiro e sincero desejo de crescimento social. São palavras úteis, que acrescentam e constroem. Não há energia negativa, desejo de vingança ou crítica azeda.

Em contrapartida, existem àquelas palavras, que impregnadas de uma seiva amarga e corrosiva queimam, ferem nossos espíritos. Voam como setas agressivas, lançadas para lacerar sem importar as consequências dos seus efeitos. Somente projetam raiva, ressentimento e despeito. São palavras fúteis, que nada constroem nem acrescentam. São ocas, sem importância relevante nem utilidade. Caracterizadas por uma sensação de mágoa, são geradoras de desprazer, de rancor ou de angústia sentida por àqueles que são alvos escolhidos.

Pequena é a diferença entre as expressões úteis e fúteis, mais enorme enquanto ao seu significado. É neste ponto que desejamos chamar para reflexão nosso leitor.

A crítica, quando construtiva e bem intencionada, sempre será útil, bem vinda. As palavras corrigem sem ferir, ajustam sem ofender, sugerem sem lacerar. Uma opinião será sempre bem recebida quando seu objetivo esteja pleno de boas intenções.

Sendo ela destrutiva, agressiva ou debochada, será sempre fútil, irrelevante, sem importância nem utilidade. Estará desprovida de essência, será tola e desnecessária.

Abençoados são todos os médios de comunicação, que encurtam distâncias, que nos permitem estar a par, quase instantaneamente, de tudo àquilo que de bom ou de ruim acontece em nosso mundo. Não tenho nada a criticar sobre o progresso da comunicação. Minha angustia se centra naquelas mensagens fúteis, escritas por pessoas que não se aprofundam nos assuntos, que não param para pensar sobre àquilo que expressam, nem muito menos nos efeitos que suas palavras podem provocar.

Sugiro meditar sobre este assunto e sua importância. A “Caixa de Pandora” foi aberta, e assim permanece há muitos e muitos anos, espalhando todas suas mazelas na humanidade. Porém, e a pesar de tudo, ainda resta a Esperança, solidamente fincada no interior de nossos corações.

Vamos meditar um instante antes de escrever ou enviar qualquer mensagem, informação ou notícia. Vamos tratar de que sejam sempre úteis e jamais fúteis.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Não haverá segunda vez

Não somente no Brasil, mas em todos os recantos do planeta existem milhares de pessoas que adotam uma posição negacionista comum frente as incontestáveis evidências que comprovam, pela ciência e pela evidência, que o vírus que provocou a pandemia mata pessoas. Em pensamento convergente, incorporam-se a estes sujeitos àqueles que enxergam uma conspiração maliciosa na adoção de medidas estatais para enfrentar os efeitos do Coronavirus assim como outros que contestam, a eficácia das vacinas, o aquecimento global, e outros temas por demais conhecidos.

Multidões de jovens, e não tão jovens, mostram-se incapazes de submeter-se a determinações restritivas das liberdades sociais, não pelo fato de serem inconsequentes, imprudentes, irresponsáveis ou levianos (tanto faz uma definição ou outra), mas como resultado de uma clara postura de denegação (ou renegação).

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a denegação não significa rejeitar ou negar um determinado fato ou situação. Renegar refere-se à recusa da percepção de uma evidência que se impõe no mundo exterior. É a evidência objetiva daquilo que está reprimido no inconsciente do sujeito.

Na denegação impõe-se um não explícito em contraposição a um sim reprimido. Devemos observar que um renegado, não afirma que uma determinada situação não existe, mas sua atitude está em contraposição a essa situação real. A terra é uma bola, porém minha posição está fincada no terraplanismo. Há evidências da esfericidade, porém defenderei a topologia plana.

Ao renegar das evidências aceito, inconscientemente, que a mesma existe. Sua atitude provoca uma profunda clivagem no seu comportamento: sabe da existência de um iminente perigo; a sua percepção do mesmo é concreta, porém, seu comportamento e suas atitudes o negam.

“O fumo mata milhões de pessoas, sei disso, porém, continuo fumando pois me traz prazer”.

Negar a pandemia e seus efeitos passa pela afirmação de que a mesma não existe, que é criação de indivíduos mal intencionados.

Mas como sustentar isso, frente ao caos instalado?

Não há como negar sua existência, rejeitar o óbvio, mostrado de forma permanente e continuada pelos diversos canais de comunicação de massa ao redor do mundo. O mundo em si, a própria humanidade, está frente a um perigo explicito, concreto e generalizado, que dificilmente encontra paralelo na história.

Àquele que denega esconde, nessa negativa, seu medo. Sua postura negacionista, mascara seu temor nas suas atitudes desafiadoras. Projeta, sobre si, uma imagem de força que no seu foro íntimo, não possui. Veste as roupas de super-herói sobre uma estrutura psíquica abalada pelo temor. Não há registros de experiências anteriores no seu subconsciente capazes de sinalizar o perigo de forma consistente. A realidade é visualizada como videogame. Uma realidade “virtual”, onde a vítima é “o outro”. Na sua percepção, os mortos não são seres humanos, mas escores registrados nos contadores estatísticos mostrados em gráficos coloridos e tabelas organizadas nas telas de altíssima definição dos aparelhos eletrônicos.

Existe uma dualidade de opiniões que se contrapõem permanentemente e exercem uma enorme pressão psíquica sobre esses sujeitos. A visão sanitarista, que conclama a população a se proteger, é permanentemente descontruída pela visão economista, que projeta imagens do desastre social resultante do fechamento das fontes de renda tais como comércio, indústria, escolas e similares. A desconstrução da realidade através dos mecanismos de distorção da informação, provocam um efeito de refração da verdade. Aquilo que percebemos não é real. A imagem real está deformada, e essa visão promove mecanismos psíquicos de rejeição dessa realidade.

“Nada irá me acontecer, milhares de pessoas pegaram uma simples gripe, os jogadores do meu time pegaram, passaram 10 dias em casa e estão jogando de novo...”

Frente a uma notícia desfavorável, que ofende ou compromete sua realidade, preferem matar o mensageiro e ignorar os perigos com que a realidade se apresenta.

Nem todas as pessoas reagem desta forma. Há aquelas que mergulham em depressão, aproveitando a oportunidade para se isolar do mundo. Outras são tomadas por angustias indescritíveis ou adotam posturas obsessivas de isolamento e bloqueio, transformando os necessários cuidados em rituais obsessivos de lavagem de mãos, utilização de álcool gel e máscaras protetoras, numa ação de permanente purificação e constrição, querendo se livrar de uma suposta culpabilidade frente ao perigo de serem contaminados. Indiscutivelmente, o ser humano, seja jovem ou maduro, deve conviver continuamente com níveis de insegurança ou incerteza decorrentes do cotidiano. Nada é totalmente seguro nem absolutamente perigoso. Sempre houve e haverá, em diferentes níveis, riscos a serem corridos. Porém, nas atuais circunstâncias, certamente os riscos ultrapassam todos os limites de segurança que possamos estabelecer. Ninguém está livre deles. Podemos, eventualmente, assumir riscos potencialmente menores, ao realizar certas atividades necessárias, atendendo todas as regras de proteção. Fazer compras em um supermercado ou numa farmácia, por exemplo. Faz parte das regras do jogo. Porém, ao participar com dezenas ou centenas de pessoas de uma balada, em um ambiente fechado, compartilhando espaços e utensílios com “conhecidos” ou “desconhecidos”, certamente não estaremos assumindo riscos potencialmente menores, mas jogando a roleta russa com uma arma carregada com 5 balas no tambor, de seis possíveis. Estamos sendo controlados por um mecanismo de massificação, onde as atitudes são adotadas pela identificação com “o outro”.

“Se meus amigos podem, eu posso. Se eles fazem, eu acompanho.”

Perde-se a singularidade racional no coletivo emocional. Não há individualidade de pensamento, avaliação de riscos, receio das consequências.

Marcha-se de forma anestesiada em direção ao caldeirão, sorrindo e desprezando todos os sinais de alerta. Caminha-se em direção ao inimigo, de peito aberto, sorrindo desafiante, na certeza de que nenhum projetil os abaterá.

Não haverá segunda vez. O fogo inimigo é cerrado e altamente eficiente. Só existe alternativa, se aceitamos permanecer na trincheira. Em silêncio. Aguardando pacientemente a luz do sol.          

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Hipocrisia e Pensamento Esquizofrênico.

Ao apagar das luzes do ano de 2020, mais precisamente em 28 de dezembro, realizamos uma postagem na qual discorremos sobre o Discurso Hipócrita . Nesse espaço afirmamos:

 O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar. (Pisandelli, 2020).

 

Pensar uma coisa, e dizer outra, é comportamento determinante daqueles que utilizam a hipocrisia como mecanismo de interlocução com os outros. Afirmamos, ainda:

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele. (Pisandelli, 2020).

 

Embora, à utilização da hipocrisia na dialética de uma relação seja altamente tóxica para as pessoas, e suas consequências sejam frequentemente evidenciadas através da ruptura conflitiva da mesma, podemos agregar um fator agravante que potencializa negativamente essa atitude. Estamos nos referindo à incorporação de um conteúdo esquizofrênico a esse discurso.

Para melhor entender nosso ponto de vista, devemos primeiramente considerar que a esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que se manifesta, geralmente no final da adolescência e o início da vida adulta. É uma doença crônica, de natureza muito complexa e que, sendo identificada, exige tratamento médico, contínuo e por toda a vida. Não é uma doença adquirida, mas um transtorno de origem estrutural, resultante de uma alteração cerebral que dificulta a realização de um julgamento correto sobre a realidade, proporciona a produção de pensamentos simbólicos divergentes e abstratos e promove a elaboração de complexas respostas emocionais em determinadas situações. A origem do termo Esquizofrenia se encontra nas raízes gregas schizo (cindir, dividir) e phren (mente), simbolizando o fato de que as funções mentais (pensamento, raciocínio e outras) se encontrariam divididas naqueles pacientes acometidos desse distúrbio.

Ao falar do conteúdo esquizofrênico no discurso não pretendemos estabelecer um prognóstico de esquizofrenia para o discursante, mas incorporar aos elementos que compõem seu pensamento, àqueles núcleos que caracterizam uma posição esquizofrênica frente ao outro. Neste aspecto, vemos que o delírio, quando inserido nas linhas de raciocínio decorrentes da forma como o pensamento está captando a realidade e determinando as críticas sobre a mesma, introduz esse conteúdo esquizofrênico mencionado acima. Esse discurso se alimenta, nestas circunstâncias, de entendimentos diferentes dessa realidade, incorporando e alicerçando as crenças e convicções em propostas, fatos e situações que não são compartilhadas pelas outras pessoas devido à total falta de coerência com a percepção coletiva. Contaminado pelo raciocínio esquizofrênico, o autor adota estratégias ou captura conceitos específicos nos fatos que estão acontecendo à sua volta, extraindo deles conclusões irracionais, que contrastam com a realidade, distorcem a objetividade e promovem uma nova estrutura de pensamento baseada em devaneios e afirmações que confrontam com as evidências objetivas.

A toxicidade do discurso hipócrita se potencializa ao incorporar a vertente esquizofrênica multiplicando, desta forma, seu poder destrutivo. É aceito como alternativa de pensamento por aquelas pessoas que, frente a questionamentos não respondidos, procuram saídas para suas angústias e incertezas. Contamina e se espalha com incontrolável energia. Distorce a realidade e deturpa a verdade, a ponto de substituí-la. Sua força é avassaladora, porém, seu conteúdo não é lançado a esmo, solto no espaço como nuvem impulsionada ao sabor dos ventos. Possui uma estrutura vetorial claramente estabelecida: Tem origem, intensidade, direção e sentido. Quando somados, outros pensamentos similares se potencializam incorporando e equalizando seus conteúdos, gerando uma ação mais contundente e eficaz.

Somente há uma força capaz de detê-lo. A força da razão e da objetividade. A não aceitação dos devaneios frente a realidade objetiva. Não haverá sucesso no confronto direto. Somente uma percepção firme e serena da realidade, frente ao delírio, permitirá derrotar sua força. Na batalha da razão não há espaço para o discurso hipócrita esquizofrênico. O combate deve ser travado na sua origem, a semente deve ser destruída, antes de germinar. Se as raízes penetrarem no solo fértil, corremos o risco de sermos asfixiados por elas.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Referencia

PISANDELLI, Sergio Pedro. A hipocrisia no discurso.  http://spisandelli.blogspot.com/2020/12/a-hipocrisia-no-discurso.html. Acessado em 24/03/2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Alquimia 5G– Uma prática cotidiana

Alquimia é uma prática baseada no misticismo, que teve seu auge durante a Idade Média (século V até século XV) e se estendeu até grande parte da Idade Moderna (século XV até século XVIII, que finda com a Revolução Francesa de 1789), incorporando nas suas técnicas os conhecimentos relativos às ciências, artes e magia existentes nessas épocas. Entre seus principais objetivos se encontravam a obtenção do elixir da vida, que garantiria a imortalidade e cura das doenças do corpo, e a busca da pedra filosofal, que permitiria a transmutação de metais comuns como chumbo e estanho em ouro. Podemos inferir que esses objetivos proporcionariam ao ser humano alcançar a imortalidade e a riqueza infinita.

Na Idade Contemporânea, a ciência e as modernas tecnologias, tem promovido de forma intensa o aparecimento de novos alquimistas da razão e do saber, poderosos magos da comunicação que, utilizando-se do poder, alcance e penetração incomensuráveis dos seus equipamentos, os utilizam como uma nova pedra filosofal, cuja mais importante propriedade consiste em transformar a realidade concreta e objetiva, regida pela verdade, em espaços virtuais paralelos onde essa realidade pode ser manipulada, distorcida a vontade, e substituída por esquemas pré-determinados, moldados a formas e interesses nem sempre em sintonia com essa realidade concreta.

Esses modernos alquimistas não improvisam nas suas práticas. Possuem técnicas altamente desenvolvidas e comprovadamente eficazes, testadas e aprimoradas, dia após dia. São mestres da comunicação, doutores em dialética. São metódicos e profissionais. Nada fica ao azar. Àquilo que pode parecer absurdo para algumas mentes mais esclarecidas, passa a ser assimilado como verdade por milhares de outras mentes, assimilado e compartilhado, acreditado e defendido, a ponto de provocar mudanças comportamentais e atitudes desafiadoras, conflitivas e agressivas, que resultam em negação da realidade, segregação e conflitos entre pessoas, famílias, grupos e comunidades.

A nova pedra filosofal – sua estrutura

1)    O moderno alquimista da informação começa com a escolha de um assunto simples, único, concreto e relevante, de elevada importância para a comunidade. Este assunto passa a ser tema focal, objeto concentrador do pensamento. É definido como o inimigo a ser derrotado.

2)    A seguir procura demonstrar como e de que forma este assunto, impacta na comunidade. Compara um “antes dele” perfeito e harmônico com um presente e futuro sombrio e contaminado por esse assunto.

3)    Realiza a transposição de diversos outros males e prejuízos para o assunto escolhido. O tal do assunto passa a ser responsável por todas as mazelas e dores presentes.

4)    Incrementa sua importância. Exagera seu verdadeiro potencial promovendo sua transformação em fonte de diversos problemas e desgraças.

5)    Transforma seus efeitos em coisas torpes, de índole maléfica. O assunto passa a ser origem do mal.

6)    São divulgadas “noticias” e declarações de “fontes confiáveis” e de indivíduos “reconhecidos” confirmando o assunto e seus maléficos efeitos.

7)    A comunicação se transforma em um verdadeiro bombardeio de novas notícias e “novidades” sobre o mesmo assunto. Replica-se a informação de forma exaustiva. Multiplica-se por mil vezes mil.

8)    Promovem-se novas interpretações de especialistas, de “experts”, sempre direcionadas a ratificar o dano provocado pelo assunto escolhido.

9)    Tudo àquilo que não estiver de acordo com a força maléfica desse assunto, é escondido, ignorado, dissimulado, desmentido.

10)Procura-se, no passado situações onde o assunto possa ser aplicado, e utilizam-se estas situações para potencializa-lo.

11)Procura-se formar comunidades com pensamento convergente, com interesses comuns, para que esse assunto seja difundido, introjetado em outras comunidades, de forma exaustiva, até ser aceito como nova verdade.

O objetivo da transmutação, finalmente é alcançado. O moderno alquimista consegue transformar chumbo e estanho em reluzente ouro, admirado e cobiçado por todos àqueles que tiveram seu pensamento modificado pela magia da comunicação alquímica.

A mentira se sobrepõe a realidade, ao verosímil. Transmuta-se em nova verdade, a qual é replicada, triplicada, multiplicada. Invade e parasita nossas mentes até que, sugando a seiva que alimenta a razão e a evidência, termina por fincar suas raízes muito profundamente, no mais íntimo de nossos corações e mentes. Passamos a ser escravos da mentira. Somos parasitados por ela.

Para nossa esperança, existe um antidoto para este poderoso e corrosivo veneno. O respeito à verdade, o desprezo pela ignomínia. A rejeição sumária das práticas alquímicas transformadoras da verdade. Isso depende somente de uma atitude proativa de nossa parte: procurar e respeitar permanentemente a verdade, rejeitando qualquer proposta utópica de transformações alquímicas da realidade.  

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

   

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Juízo de fato e juízo de valor

 Ao olhar pela janela e dissermos: “Hoje faz sol” descrevemos um acontecimento que está sendo constatado por nós. Estamos nos referindo a uma percepção objetiva evidenciada por nossos sentidos. Proferimos, nestas circunstâncias, um juízo de fato.

Se, a seguir, comentamos que “O sol é benéfico para as plantas e para nossa saúde” estaremos realizando uma interpretação e avaliação subjetiva desse acontecimento. Com este comentário estaremos realizando um juízo de valor daquele evento.

 

“Juízos de fato são aqueles que dizem que algo é ou existe, e que dizem o que, nas coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor são avaliações sobre coisas, pessoas, situações e são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião. Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis e indesejáveis. Juízos de valor não se contentam em dizer que algo é ou como algo é, mas se referem ao que algo deve ser. Dessa perspectiva, os juízos morais de valor são normativos, isto é, enunciam normas que dizem como devem ser os bons sentimentos, as boas intenções e as boas ações, e como devem ser as decisões e ações livres. Em outras palavras, são normas que determinam o dever ser de nossos sentimentos, nossos atos, nossos comportamentos. São por isso juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo o critério do correto ou incorreto.  (Chauí, Marilena, 2003, p.307)”.   

 

Não é muito difícil emitir um “Juízo de fato” em nosso cotidiano. Na realidade, é isso que fazemos continuamente, como resultado de nossa percepção da realidade e da avaliação permanente do entorno em que vivemos. Essa percepção objetiva de um fato é uma forma de interação entre o indivíduo e o meio. Serve, muitas vezes, como sinal de alerta frente a uma eventual situação de perigo. Identificar um piso molhado acende o sinal de alerta: “Cuidado, podemos escorregar”. Simples assim. Vivemos imersos em permanentes “juízos de fato” e “juízos de valor”, e assim continuamos percorrendo nosso caminho.

O quadro começa a mudar sua tonalidade, quando essa percepção objetiva do fato, migra para uma interpretação e avaliação subjetiva do mesmo. A situação de perigo: “piso molhado” (juízo de fato), se alterna para: “alguém molhou o piso” (juízo de valor). A introdução de um sujeito pronominal indefinido, estabelece uma culpabilidade subjetiva. Há um responsável por isso, alguém deve assumir sua culpa. Se “eu” escorregar, será por obra e arte da irresponsabilidade do “outro” que molhou o piso. Haverá uma interpretação e avaliação subjetiva do fato, um “juízo de valor”. Incorporamos uma intencionalidade ao evento, que pode ou não ser real. O piso molhado pode ser consequência de uma eventual infiltração que permite a entrada de água da chuva, simples assim, impessoal, circunstancial, sem objetivo premeditado. Porém, nós alteramos a cena. Colocamos um sujeito virtual nela. Esse “outro”, é o inominável, àquele que não sou “eu”. Há um responsável. Existe, e deverá ser identificado! Nosso juízo de valor está completo! Encontramos um responsável, um culpado: o outro.

No post “O poder dos outros”[1] destacamos a força e o poder que “os outros” exercem em nossa vida:


Que força poderosa possuem os outros! Que capacidade destrutiva tem nas suas mãos! De que forma covarde nos agridem e ofendem, a cada instante! De que forma ladina e mal-intencionada nos roubam, arrebatam nossos sonhos, destroem nossas esperanças! É impossível ser feliz, viver em paz, construir nosso futuro, por culpa dos outros que interferem em nossos sonhos, derrubando as paredes que construímos com tanto esforço! Vivemos num verdadeiro inferno por culpa dos outros. Somente há uma coisa que não podemos esquecer: Para os outros, o outro somos nós! 

 

Deixamos aqui um sinal de alerta, sobre nossa incrível capacidade de realizar “Juízos de valor” viciados por uma interpretação subjetiva e egoísta da realidade, com o único desejo de culpar o outro, por aquilo que nos afeta negativamente. Em nossos julgamentos, maculados pelo egoísmo, não procuramos encontrar soluções para as mazelas que nos afligem, mas identificar àqueles que consideramos culpados por elas. Essa atitude se voltara contra nós. Haverá um preço a ser pago por ela, que nem sempre estaremos dispostos ou poderemos pagar.


Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Bibliografia:

 

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. [Livro do Professor] – 13ª edição, 1ª impressão. São Paulo, Editora Ática,2003,