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sábado, 5 de abril de 2025

O que são as emoções?

Frequentemente, os seres humanos nos surpreendemos dominados pelas emoções. Sentimentos como ternura, amor, ódio, raiva, irritação, felicidade, alegria ou tristeza, entre tantas outras, tomam conta de nós com uma força e intensidade tal, que nem sempre são passíveis de serem controlados. 

Nossas vidas são moduladas e transformadas pelas emoções, sendo elas vetores que direcionam nosso comportamento e nossas atitudes. Como seres biopsicossociais, estamos sujeitos a complexos processos emocionais que moldam nossas respostas às diversas situações que devemos enfrentar em nosso dia-a-dia. As emoções, são respostas complexas e multifacetadas do nosso organismo a estímulos internos ou externos recebidos de forma consciente ou inconsciente. Elas resultam de uma combinação de processos fisiológicos, psicológicos e comportamentais que nos ajudam a interpretar e reagir à complexidade do mundo no qual estamos inseridos e do qual formamos parte, voluntaria ou involuntariamente. Em uma visão inicial e relativamente simplificada, podemos categorizar as emoções como positivas, sendo um exemplo delas a alegria e o amor, ou negativas, quando consideramos a tristeza e o medo.

As emoções, de uma forma ou de outra, contribuem de forma permanente com nosso desenvolvimento como seres humanos. Forjam e temperam nossa personalidade, de forma permanente e continuada.

Podemos dizer que somos seres moldados por nossas emoções. Elas desempenham um papel essencial na nossa vida, nos ajudando a estabelecer conexões e relacionamentos, a tomar decisões e adaptar-nos, em maior ou menor grau, a diferentes situações. As emoções tem uma profunda e definitiva influência em nossas raízes evolutivas. Podemos considerar, por exemplo, o medo, que serve como mecanismo de proteção, frente a situações inesperadas ou de iminente perigo, O medo é uma forma de nos alertar sobre uma eventual situação, que pode comprometer nossa integridade física e, até nossa sobrevivência.

Outra emoção, desta vez, gratificante, é a felicidade, que está associada principalmente à busca de bem-estar.

As emoções, em certas circunstâncias, podem ser promotoras de desconforto ou sofrimento nas pessoas, quando impulsionam reações que, em situações de convívio harmonioso, não aconteceriam, ou seriam devidamente contidas e  evitadas. Não sem razão, existem considerações legais particulares, quando um crime é cometido “sob a influência de intensas emoções”.

Para finalizar esta breve introdução, podemos dizer que os seres humanos são moldados, durante sua existência, pelas emoções, sejam elas positivas ou negativas, próprias ou do seu grupo social.

Esperamos que a leitura destas simples considerações, ajude e permita obter um melhor e maior entendimento de nossas emoções e seu significado e impacto no cotidiano, as quais tanto tem contribuído, e contribuem para modelar nossa vida e nosso convívio no difícil e complexo mundo no qual estamos, como viajantes no tempo, imersos.

Esta postagem, inicia uma serie de pequenos artigos, nos quais estaremos realizando uma rápida passagem sobre alguns conceitos relativos às emoções e seus impactos ao longo de nossa breve viagem nesta fantástica nave chamada "TERRA". Esperamos que nossa opinião possa trazer uma pequena contribuição para entender um tema tão complexo, e nem sempre bem entendido.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Paternidade responsável e consumismo

 

Em fevereiro de 1999, escrevi um artigo para a revista “O CENECISTA”[1] a convite do então Superintendente da CNEC – CE, Prof. José Lúcio Ferreira de Melo. Transcrevo o mesmo hoje, 08 de março de 2022, ou seja, depois de transcorridos 23 anos, daquela data. A sua releitura me proporciona a oportunidade de refletir sobre o tema em epígrafe: “Paternidade responsável e consumismo”. Vamos, sem mais delongas ao referido texto:

         “O Brasil enfrenta mais uma das, até agora, infinitas crises econômicas e de credibilidade das suas instituições e lideranças. A estrutura financeira do sistema encontra-se abalada e sua instabilidade reflete-se no seio da população, castigando, preferencialmente, camadas cujas rendas são menores. A situação está tomando uma tal gravidade que até as chamadas classes favorecidas sentem, na própria carne, a dor de perder sua liberdade de consumir.

         Esse descalabro atinge, e não poderia ser de forma diferente, os setores produtivos, comercial e de serviços. Dentro destes últimos anos, não podemos deixar de destacar os estabelecimentos educacionais. As escolas estão sendo penalizadas de forma criminosa, retirando-se delas sua capacidade operacional, através do aumento contínuo de suas despesas sem poderem repassar esses custos para o lado das receitas.

         Hoje, está sendo colocado em xeque o futuro do Brasil, comprometendo a qualidade de ensino das crianças que serão nossos líderes amanhã.

         Essas crianças são nossos filhos, não os filhos dos outros. A responsabilidade pela formação dos futuros homens e mulheres é nossa, portanto devemos refletir sobre qual deve ser nossa postura como pais, frente a essa contingência.

         A escola de nossos filhos deve ser a melhor e mais completa possível. Deve ser aquela que tenha uma proposta pedagógica dirigida à formação do ser humano completo. Não simplesmente dirigida a preparar uma dúzia de alunos para serem campeões do vestibular. Nossa cobrança deve ser neste sentido, pois a oportunidade de formar nossas crianças somente tem caminho de ida. E quando passa, jamais se repetirá.

         Nós temos essa escola bem a nossa frente. Nossos filhos são seus alunos. E somos os responsáveis pela sua continuidade. É nossa obrigação moral lutar pela sua sobrevivência. E para isso devemos assumir o compromisso pela sua manutenção como modelo de excelência no ensino. Qualquer sacrifício vale a pena, pois é o futuro de nossos filhos que está em jogo.

         Devemos refletir profundamente sobre este assunto, principalmente na hora crítica em que comprometemos nossa renda em gastos que podem ser evitados. A escola é um investimento com o melhor retorno possível. O consumo é um veneno que nos mata lentamente tirando de nós toda a capacidade de honrar a paternidade responsável.

         Cada vez que utilizamos os cartões de créditos, cheques pré-datados, os crediários ou, até mesmo, o dinheiro vivo, devemos nos fazer estas perguntas: Já fiz o investimento mensal nos meus filhos? Meu compromisso com sua formação foi cumprido?

         Se a resposta for “ainda não”, devemos parar e pensar. Os impulsos de consumo devem ser refreados e nosso talão de cheques deve ser guardado. Devemos dar um basta à falsa ilusão de poder que a publicidade lapida em nossas mentes. Força e poder são decorrentes do orgulho que devemos sentir como pais responsáveis.

         A escola é a forja onde se modela o caráter de nossos filhos. Para que o resultado seja o desejado, devemos mantê-la acessa.

         E somos nós que alimentamos sua fornalha com carvão.

      Claramente, o mundo dá múltiplas cambalhotas, mudanças se sucedem em ritmo vertiginoso, não mais há “vestibular” e “cheque pré-datado”, mas há ENEM, PIX, TED, DOC e uma torrente de meios de estudo e pagamentos novos e ingeniosos. Muitos dos filhos de 23 anos atrás, são hoje pais corujas que levam diariamente seus pequenos às escolas modernas. Somente há uma coisa que permanece imutável no tempo: A paternidade responsável e o consumismo. Um consumismo exacerbado pelo modo atual de vida, pela facilidade de pagamento, pelas ofertas imperdíveis, pelos milagrosos produtos importados ou nacionais que nos oferecem facilidades e benesses incríveis. Tudo ao alcance da mão, no celular, no pagamento instantâneo, na entrega à domicílio. É necessário sobrepor a paternidade responsável ao consumismo, e lapidar em nossos filhos essa consciência, para que no futuro, sejam eles os novos pais responsáveis que possibilitem, com seus atos, a permanência do ser humano consciente de sua missão irrenunciável na vida.

        Vinte e três anos se passaram desde essa publicação. Meus filhos, estudantes aplicados, na época, são hoje profissionais de sucesso dos quais muito me orgulho. Tenho certeza de que muitos erros foram cometidos nesse tempo. Errar faz parte da vida. Porém uma coisa que jamais pode ser negligenciada é a paternidade responsável. O preço a pagar pela omissão, certamente será caro demais.

    

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.  



[1] Revista “O CENECISTA”. Fevereiro de 1999. Pag. 22

sábado, 18 de dezembro de 2021

Onde está o lobo mau...?

 Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. O Autor

A sociedade contemporânea passa por mudanças contínuas, radicais e imprevistas, as quais se processam de tal forma aceleradas que frequentemente nos resulta praticamente impossível acompanhá-las na sua totalidade, visto o ritmo frenético, quase torrencial com que aparecem. Uma imensa maioria, acontece, evolui e desaparece sem que sequer tomemos, ao menos, conhecimento de sua existência. As pessoas, seus negócios, interesses, desejos e relacionamentos se multiplicam, desdobram, modificam, fusionam e/ou adotam as formas mais diversas possíveis. Os mecanismos, regras, normas e canais de comunicação e interação social são mutantes, interligados, multiformes. Se apresentam em multiplataformas e obtém alcance planetário quase imediato. As fronteiras e limitações físicas são abolidas em nome do progresso, da globalização e da liberdade de expressão. Atitudes éticas e comportamentais tradicionais são contestadas e substituídas por novas sem terem previamente passado pelo recomendável crivo de um julgamento crítico. Muitas destas novas atitudes possuem regras normativas (quando as possuem) cujos valores nem sempre se fundamentam numa razão ou estruturação sólida e consistente que justifiquem a mudança. As vezes são simples mudanças de tons, das mesmas cores. Outras, no entanto são radicais, a ponto de estabelecer verdadeiras revoluções estruturais na arquitetura da sociedade. 

As cidades, hoje transformadas em megalópoles, gigantescos e massivos conglomerados urbanos, padecem com suas ruas saturadas de veículos, seus enormes centros comerciais e imensas torres de cimento, aço e cristal que crescem e se expandem a cada instante, em todos os sentidos possíveis. Sempre maior, mais largo, mais alto, mais profundo, procurando utopicamente um pseudo-isolamento físico alienado. Nesse espaço privativo e isolado se procura, curiosamente e de todas as formas possíveis, permanecer continuamente interligado com o resto do mundo.  As distâncias se encurtam de tal forma, que é possível tomar o café da manhã em Fortaleza, almoçar em Brasília e jantar em Buenos Aires, tudo num mesmo dia. Paradoxalmente, um verdadeiro caos relacional, estabelece suas próprias regras, e as pessoas mergulham a cada dia, de forma mais e mais profunda nele. Nada permanece imutável na vida dos seres humanos. Tudo é permanente até ser substituído. A relação familiar é descartável! O amor eterno de hoje se transforma em ódio amanhã. Mata-se um filho porque incomoda no relacionamento entre os pais. Adota-se um animal, e abandona-se uma criança no depósito de lixo.

Certamente haverá pessoas que, levantarão suas vocês de indignação ao ler estas palavras. Outras reconhecerão, que de uma forma ou de outra já participaram de situações similares. Muitas, sem dúvida, as rejeitarão, taxando-as de exageradas e mentirosas.

Embora relevantes e sempre respeitadas por mim, essas opiniões individuais e divergentes não passam disso, pois não há possibilidades de fugir da realidade. Uma realidade que está presente no dia-a-dia, e vivenciada por nós, e somos parte inseparável dela. Não obstante essas avassaladoras mudanças, existem múltiplos elementos ocultos que fazem parte dessa sociedade em permanente e dolorosa revolução, que continuam solidamente enraizados nas suas entranhas, nos alicerces de sua estrutura, desde o início dos tempos e que, embora alterando continuamente sua roupagem, jamais deixaram de estar presentes, comprovando com sua presença que a pesar das mudanças, muitas coisas continuam iguais.

Estamos nos referindo a uma praga universal que se encontra entre as maiores e mais dolorosas mazelas sociais: a pedofilia, o abuso sexual de crianças. Ela se espalha em silêncio, se ramifica, muda de forma, de cor e de tamanho. É contaminante e parasita suas vítimas, sugando delas o sorriso, a alegria de viver e deixando nelas cicatrizes indeléveis que as marcarão para sempre.

Não obstante, e a pesar da gravidade da situação, podemos considerar que nem tudo está perdido. Pandora, na sua angustiante constatação do erro cometido, ainda tentou fechar a ânfora divina, mas era tarde demais: tudo tinha vazado dela, com a exceção da "esperança", que permaneceu presa junto a sua borda. Essa esperança se encontra hoje alojada em nossos corações e assim deve permanecer sempre, viva neles. Esta é a única forma de assegurar que o homem não será derrotado pelo mal, sucumbindo às dores e aos sofrimentos da vida.

Este trabalho não é uma denúncia, nem uma receita para julgar o pedófilo nem um manifesto destinado a acabar com a pedofilia, mas uma forma de trazer à tona uma verdade, nem sempre evidente: a necessidade de exercer uma paternidade responsável, requisito essencial para a sobrevivência do ser humano. Sermos pais responsáveis envolve muito mais que procriação, alimentação e satisfação de desejos de consumo dos filhos. É a tarefa mais nobre e complexa que o ser humano deve enfrentar, embora nem sempre sejamos perfeitamente conscientes disso. Essa paternidade requer como obrigação, a necessidade de olhar para nossos filhos com amor, e sermos capazes de abdicar de tudo aquilo que seja banal em nome desse amor.

Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. Ensinar e educar são coisas diferentes. A escola pode assumir a responsabilidade de ensinar, más a educação é um encargo que corresponde exclusivamente ao grupo familiar. É uma tarefa indelegável, impossível de ser terceirizada. Essa educação inclui, no seu âmago o cuidado pela prevenção da integridade física e mental das crianças. Deixa-la de lado, significa abdicar da função paterna.

Esperamos que a leitura deste texto permita acender uma luz na úmbria caverna do caos, e permita nos orientarmos, para que, junto aos nossos filhos encontremos o melhor caminho em direção à saída.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Onde está o lobo mau (Parte II): Isso nunca acontecerá com nossos filhos!

 A fábula “Chapeuzinho Vermelho”, é certamente, por todos nós conhecida, não obstante isso, nem sempre valorizada na sua justa medida, nem reconhecidos os seus importantes ensinamentos. Encerra, nas suas palavras, uma mensagem por demais esclarecedora, a qual é dirigida não só às crianças que adoram ouvi-la, mas particularmente aos pais, que com frequência preocupante permitem que seus filhos se adentrem nas “florestas da vida”, confiantes em que nada virá a lhes acontecer.

Estas postagens (Parte I e II) não tem, nem nunca tiveram, a pretensão de serem um tratado sobre abuso de crianças ou pedofilia, nem poderiam sê-lo, considerando a extrema complexidade e amplitude do tema. Não obstante, foram escritas com uma adequada fundamentação teórica, embasamento que lhe confere a necessária garantia de verossimilitude em suas diversas e múltiplas afirmações.

Procuramos sempre levar, de forma objetiva até o leitor, uma visão esclarecedora e plausível de alguns dos perigos aos quais as crianças estão expostas cotidianamente nos diversos ambientes que frequentam, com ou sem o aval paterno. Estes ambientes, os mais diversos possíveis, possuem quase sempre brechas, fendas ou canais inesperados que permitem a entrada sub-reptícia de elementos mal intencionados os quais, agindo de forma similar aos predadores implacáveis da floresta, ficarão à espreita de suas presas, em silêncio, o tempo que for necessário, até que, de forma inesperada, estas cairão nas suas garras, sem perdão, inexoravelmente.

As vítimas potenciais, são pequenos e inocentes seres desprotegidos, que nem sempre possuem uma verdadeira noção do perigo que estão correndo. Curiosos, procuram continuamente por respostas a cada uma de suas intermináveis interrogações, respostas que às vezes, ao serem encontradas, geram novas dúvidas, em ciclos que se repetem ad infinitum.

Embora paralisados pelo medo, às vezes superam as barreiras, sedentos de serem partícipes de novas e excitantes experiências. Ser criança é aceitar desafios sem medir consequências. Angustiados, certamente, ao ter que enfrentar uma situação totalmente inesperada, porém permanentemente premidos pela necessidade de aprender e apreender, de tomar para si tudo o que se apresenta como novo, desconhecido, nem sempre desejado, mas pleno de mistério, que lhes é oferecido de mãos abertas, gentilmente, sem censura, sem reproches.

São deixados pelos pais, familiares ou responsáveis em aparente segurança, dentro dos mais elevados níveis de confiança possíveis, em espaços pretensamente blindados ao mal, com aquelas pessoas que, se espera, lhes fornecerão educação e conhecimento, cuidarão de sua saúde e higiene, os alimentarão e resguardarão na ausência dos seus maiores, fato por demais frequente nestes dias atribulados e cheios de compromissos sociais, laborais e profissionais.

Ficam em ambientes considerados fortemente protegidos, com grades, câmeras de vídeo, cercas elétricas, guardas munidos de médios de comunicação de última geração, convenientemente isolados por portas, travas e vidros blindados, pretensamente a salvo dos potenciais perigos que estão presentes no cotidiano de suas vidas, daqueles bandidos transvestidos de mocinhos, das drogas e maldades, das armas, enfim, dessa violência urbana cotidiana que inunda e sufoca cada vez mais nossa sociedade.

Condomínios, escolas, igrejas, clubes, acampamentos, casas de amigos tradicionais, de parentes muito próximos, clínicas de renome, consultórios, academias de arte ou dança, creches, quiçá o próprio quarto, a sala ou o banheiro do lar, naquele inviolável espaço familiar.

Estes são tão somente alguns dos lugares nos quais se deposita essa confiança, deixando ou entregando as crianças, com alegria, sem medo, na certeza de que, logo mais estarão retornando aos nossos braços, sãs e salvas.

Mas, nem sempre isso é uma verdade insofismável. Da mesma forma em que, dentro desses ambientes seguros, as rosas podem nos mostrar toda sua beleza e esplendor, a semente do mal pode ter sido plantada e estar germinando em silêncio. O predador pode encontra-se já oculto na penumbra, em silêncio, acaçapado, afiando suas garras, pronto para dar o bote.

Qual lobo transvestido de avó pode encantar com sua candura, tal qual onírico príncipe que seduz, com o brilho dos seus olhos e a permanente alegria do seu sorriso. A pergunta surge naturalmente: Onde está o lobo mau...?

As armadilhas podem estar prontas, aguardando a oportunidade, montadas na úmbria solidão dos corredores, nos quartos de estudo e nas salas de aula, nos vestiários, parques, bibliotecas e salas de jogos, nos banheiros e dormitórios. Na solidão dos auditórios fechados, nos cinemas e nos templos consagrados. Nas garagens, estacionamentos e guaritas. Nos consultórios, onde se procura a seriedade e integridade do profissional de saúde. Na sala de música e canto, no atelier do mestre pintor...

Sempre que houver uma oportunidade para o mal ser praticado, haverá uma ocasião para praticá-lo e alguém pronto e disposto a tirar proveito disso. Não existe impossível para quem deseja satisfazer seus desejos perversos. Não há barreiras, grades, portas ou muros, luzes ou sombras capazes de impedir a ação de um ser mal-intencionado. O tempo e o silêncio estarão sempre de seu lado.

Muitos de nossos leitores, certamente comentarão para si: tudo isto é balela, papo furado, exagero doentio. Não existe em hipótese nenhuma, este mundo horrível dentro do meu universo pessoal. Meus amigos e colegas são da mais alta confiança. O colégio dos meus filhos é tradicionalmente o melhor e mais qualificado estabelecimento educacional da cidade, seus professores e a diretoria, são irrepreensíveis. Nunca houve um caso sequer de moléstia a uma criança.

Os templos, de cujas cerimônias religiosas participamos nós e todos nossos amigos e familiares, estão a cargo de pessoas maravilhosas, amorosas, cheias de bondade e que cuidam abnegadamente dos pobres, dos anciões e dos menores em situação de risco, que tanto existem nas ruas. Basta participar dos ritos e encontros, conversar com as pessoas, para perceber que esse amor e essa bondade estão presentes em cada ato.

Os consultórios médicos nos quais nossos familiares são tratados pertencem aos mais renomados profissionais de saúde, ou se encontram nas melhores clínicas e hospitais da cidade.

Ninguém, na nossa primorosa família, jamais seria capaz de cometer o menor ato reprochável com qualquer criança que seja, e muito menos com algum dos nossos filhos. Eles são adorados e cobertos de carinho por tios, avós e primos.

Nossos amigos compartilham com suas famílias os melhores e mais felizes momentos de suas vidas conosco, e são todos da mais elevada qualidade humana. É absurdo pensar uma coisa assim. Isso nunca acontecerá com nossos filhos!

Outros, no entanto, ficarão apreensivos e desconfiados. Alguns quiçá, podem até lembrar-se de algum caso acontecido faz certo tempo com vizinhos ou conhecidos, enfim, com os outros.

Finalmente, haverá aqueles, que lendo alguns parágrafos deste texto, permanecerão em silêncio, sentindo um aperto na garganta ao lembrar-se da dor sentida, no corpo e na alma. Estes podem até não mais serem capazes de chorar, pois suas lágrimas estarão represadas pelo terror, nos mais recônditos e obscuros espaços selados da memória.

Não é feito pelo autor, nenhum juízo de valor sobre qualquer opinião, seja ela favorável ou contrária ao conteúdo exposto aqui. Cada pessoa pode e deve ter livre arbítrio para pensar e agir como sua consciência assim o determinar.

Esperamos, no entanto, que ninguém feche os olhos, tampe os ouvidos nem silencie a voz, sem se deter um instante para meditar, e se fazer, em silêncio, uma única pergunta: será isso possível de acontecer? A possível vítima pode estar, neste momento olhando na sua direção, quiçá ao seu lado, sem poder expressar seus medos e angústias, sua dor, seu sofrimento.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

domingo, 25 de abril de 2021

Somente vive quem permanece vivo

 

O medo do desconhecido bloqueia nosso pensamento, nos paralisa, impedindo-nos de fazer escolhas que, frequentemente, podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso, isto é, simbolicamente falando, entre a vida e a morte.[1]

  Em nosso artigo, denominado “Via de porre e via de levare”  consideramos que “Todos nós, como seres humanos, desde a concepção até o último alento, passamos por um processo contínuo de adequação e mudanças, sejam elas orgânicas, psíquicas ou sociais. Vivemos numa permanente construção e aperfeiçoamento do ser, com um objetivo primordial: sobreviver o quanto e o melhor que for possível.”

Quando crianças, sonhamos com a adolescência. As alterações orgânicas mudam nossas atitudes e desejos. Passamos a renegar o passado: “Não sou mais criança...” é frase repetida mil vezes. A vontade de correr supera a força de nossas pernas. A curiosidade se transforma em desafios que nem sempre estamos dispostos a enfrentar. O desejo nos inflama. As múltiplas quedas, aparam as arestas. Nossos corpos e nossas mentes, são dolorosamente ajustados até se transformarem em poderosos e jovens adultos. Avançamos a cada dia, nos apaixonamos, casamos, temos filhos e nossos filhos, retomam os sonhos das crianças. A vida, não tem retornos. Somente é possível avançar.

De forma análoga a uma pintura de alta complexidade artística, o homem desenvolve sua estrutura bio-psico-social por via de porre através do agregado de sucessivas camadas de conhecimentos, experiências e relacionamentos que, a cada instante, são incorporadas como resultante do processo de aprendizado contínuo ao qual estamos permanentemente submetidos. Tintas e cores aplicados ao longo da vida por múltiplos e diferentes artistas: pais, mestres, parentes, amigos, esposos, filhos, netos, enfim, todos e cada um daqueles que em algum momento interagem ou se cruzam em nosso caminho. Essa obra fica, a cada dia, mais perto do seu acabamento final, que coincide com o momento de nossa despedida[2].

A vida é uma construção permanente, porém, para continuar vivos se faz necessário remover obstáculos que bloqueiam a passagem das estruturas que a suportam. É necessário arrancar, por via de levare, na força do martelo e do cinzel, aquelas camadas que nos sufocam e nos aprisionam dentro de um bloco rígido. Não podemos permitir que o medo nos paralise, que o amargo nos envenene ou que o silêncio nos afaste da alegria de viver. Por trás dessas camadas grosseiras, dos cabelos grisalhos ou da pele sem viso, poderemos descobrir a figura suave, brilhante e formosa que permanece escondida no bloco sólido de nossa alma. O ser humano se modela a cada instante, seja por via de porre ou por via de levare. Na suavidade do pincel que dá os tons multicoloridos a nosso ser, ou na força do cinzel e do martelo, arrancando de nós a rigidez da pedra que sufoca nossos sentimentos e nossa alma.

Sigmund Freud disse que o inconsciente é algo que fica escondido em cada um, mas que se manifesta sem sabermos nos comportamentos. Ao ter outras prioridades que não seja você, a mensagem que fica registrada é que você não é tão importante, que não tem tanto valor e que os outros são mais relevantes e dignos da sua atenção e você vira uma personagem secundária na própria vida.
E isso reforça a mensagem de não ser capaz nem do básico por si mesma, cultiva o não merecimento, a insegurança, o autoabandono que provoca um vazio interior, que gera uma ferida na qual nada é capaz de suprir, tendo isso repercutido em todas as áreas da vida.
A pessoa sofre, se envolve em relacionamentos ruins, adquire hábitos compulsivos como comprar muitas roupas sem necessidade por exemplo, em busca de refúgio.[3]

A todo instante e independentemente de nosso tempo de permanência, vulgarmente conhecido como “idade”, somos fortemente influenciados pelas fantasias, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Inconformados pelos fios grisalhos de nossos cabelos, os pintamos de forma nem sempre harmoniosa, seguindo a “tendência atual e retomando o viso da juventude”, sem aceitar que os fios permanecem brancos na sua essência. Utilizamos cremes milagrosas a base de produtos instantaneamente rejuvenescedores para eliminar rugas na pele, sem perceber que que a pele permanece a mesma.  Adquirimos roupas multicoloridas, modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. [...]Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores. [...] sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos. [...]As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria. Devemos aceitar a beleza real, a que nos identifica, àquela que possuímos em nossos corações. Não devemos vestir uma roupa para parecer jovens, mas devemos vesti-la para mostrar que permanecemos jovens, alegres, e orgulhosos de sermos bonitos. É necessário viver a vida, da forma que ela realmente é. Não é a idade que nos torna amargos. São nossas escolhas erradas. Não podemos aceitar o papel de coadjuvantes de nossa própria vida. É necessário sermos permanentes protagonistas. Nossas atitudes devem ser proativas. Nossa prioridade deve estar centrada em nossa felicidade. Devemos viver, para continuar vivos.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 



[1] https://spisandelli.blogspot.com/2020/11/medo-do-desconhecido.html

[2] http://spisandelli.blogspot.com/2020/11/via-di-porre-e-via-di-levare.html

[3] Ana Carolina Rodrigues. https://www.instagram.com/p/CNvqskdBFsT/

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Saber fazer – poder fazer – querer fazer.

Para termos sucesso em qualquer empreendimento de nossas vidas, devemos atender um mínimo de três requisitos básicos para alcança-lo. Saber fazer, poder fazer e finalmente querer fazer. Dificilmente alcançaremos o objetivo, se algum desses requisitos não estiver atendido.

 1. Saber fazer

Saber fazer requer conhecimento. Muito conhecimento. Envolve uma capacidade inata do ser humano: a capacidade de aprender. É necessário saber para fazer. Nada poderá ser feito se não houver o necessário saber. Porém, aprender não é um processo simples. Essa aprendizagem é consequência da aquisição de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes que se realiza através do ensino, em suas diversas etapas, da experiência ao longo de toda a vida e dos estudos específicos, realizados em campos de interesse particular de cada indivíduo. Se processa de forma gradual, progressiva e acumulativa. Envolve grandes doses de atenção, memória, linguagem, raciocínio e requer frequentemente uma tomada de decisão na escolha do que é certo ou errado. Não se aprende do dia para a noite. Aprender requer uma vida, e a cada dia se aprende algo novo.

 2. Poder fazer

Supondo que o requisito de saber fazer é atendido, nos deparamos com o segundo requisito obrigatório para a obtenção do sucesso na empreitada: devem existir as condições necessárias e suficientes para poder fazer o que nos propomos. Estas condições são as mais diversas possíveis e dependem do tipo de desafio a ser enfrentado. Local, equipamentos, suprimentos, capital, matérias primas, estoques, disponibilidade, pessoas, conectividade, logística, enfim, àquilo que nos permitirá alcançar nosso objetivo.

Quando as condições para poder fazer o que nos propomos fazer não estiverem presentes, certamente o fracasso estará muito próximo. A meta dificilmente será alcançada.

Embora estas dificuldades são fatores complicadores de extrema importância, nada será impossível de superar se pudermos contar com um planejamento adequado e o tempo necessário para sua implementação.

 3. Querer fazer    

Ergue-se a nossa frente a principal arma para derrubar qualquer barreira de impedimento. Absolutamente nada será feito se o querer fazer não estiver dominando as ações. Ao querer fazer nos armamos com um aríete capaz de penetrar as mais resistentes muralhas que se apresentarem em nosso caminho. Não há obstáculo instransponível quando a vontade de fazer está presente. Das pedras destilamos leite, dos sonhos extraímos respostas, das promessas colhemos frutos.

Sem querer fazer não há resultado possível. Não há metas alcançadas nem catedrais construídas. Não haverá luz na penumbra, nem compromissos atendidos. O conhecimento torna-se inútil, e os suprimentos perderão sua validade. A vida perde sua razão de ser.

O saber fazer e o poder fazer tornam-se inúteis quando o querer fazer não se incorpora aos nossos sentimentos e impulsiona nossas ações. Esta é a essência do sucesso: querer fazer.

 Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Hipocrisia e Pensamento Esquizofrênico.

Ao apagar das luzes do ano de 2020, mais precisamente em 28 de dezembro, realizamos uma postagem na qual discorremos sobre o Discurso Hipócrita . Nesse espaço afirmamos:

 O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar. (Pisandelli, 2020).

 

Pensar uma coisa, e dizer outra, é comportamento determinante daqueles que utilizam a hipocrisia como mecanismo de interlocução com os outros. Afirmamos, ainda:

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele. (Pisandelli, 2020).

 

Embora, à utilização da hipocrisia na dialética de uma relação seja altamente tóxica para as pessoas, e suas consequências sejam frequentemente evidenciadas através da ruptura conflitiva da mesma, podemos agregar um fator agravante que potencializa negativamente essa atitude. Estamos nos referindo à incorporação de um conteúdo esquizofrênico a esse discurso.

Para melhor entender nosso ponto de vista, devemos primeiramente considerar que a esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que se manifesta, geralmente no final da adolescência e o início da vida adulta. É uma doença crônica, de natureza muito complexa e que, sendo identificada, exige tratamento médico, contínuo e por toda a vida. Não é uma doença adquirida, mas um transtorno de origem estrutural, resultante de uma alteração cerebral que dificulta a realização de um julgamento correto sobre a realidade, proporciona a produção de pensamentos simbólicos divergentes e abstratos e promove a elaboração de complexas respostas emocionais em determinadas situações. A origem do termo Esquizofrenia se encontra nas raízes gregas schizo (cindir, dividir) e phren (mente), simbolizando o fato de que as funções mentais (pensamento, raciocínio e outras) se encontrariam divididas naqueles pacientes acometidos desse distúrbio.

Ao falar do conteúdo esquizofrênico no discurso não pretendemos estabelecer um prognóstico de esquizofrenia para o discursante, mas incorporar aos elementos que compõem seu pensamento, àqueles núcleos que caracterizam uma posição esquizofrênica frente ao outro. Neste aspecto, vemos que o delírio, quando inserido nas linhas de raciocínio decorrentes da forma como o pensamento está captando a realidade e determinando as críticas sobre a mesma, introduz esse conteúdo esquizofrênico mencionado acima. Esse discurso se alimenta, nestas circunstâncias, de entendimentos diferentes dessa realidade, incorporando e alicerçando as crenças e convicções em propostas, fatos e situações que não são compartilhadas pelas outras pessoas devido à total falta de coerência com a percepção coletiva. Contaminado pelo raciocínio esquizofrênico, o autor adota estratégias ou captura conceitos específicos nos fatos que estão acontecendo à sua volta, extraindo deles conclusões irracionais, que contrastam com a realidade, distorcem a objetividade e promovem uma nova estrutura de pensamento baseada em devaneios e afirmações que confrontam com as evidências objetivas.

A toxicidade do discurso hipócrita se potencializa ao incorporar a vertente esquizofrênica multiplicando, desta forma, seu poder destrutivo. É aceito como alternativa de pensamento por aquelas pessoas que, frente a questionamentos não respondidos, procuram saídas para suas angústias e incertezas. Contamina e se espalha com incontrolável energia. Distorce a realidade e deturpa a verdade, a ponto de substituí-la. Sua força é avassaladora, porém, seu conteúdo não é lançado a esmo, solto no espaço como nuvem impulsionada ao sabor dos ventos. Possui uma estrutura vetorial claramente estabelecida: Tem origem, intensidade, direção e sentido. Quando somados, outros pensamentos similares se potencializam incorporando e equalizando seus conteúdos, gerando uma ação mais contundente e eficaz.

Somente há uma força capaz de detê-lo. A força da razão e da objetividade. A não aceitação dos devaneios frente a realidade objetiva. Não haverá sucesso no confronto direto. Somente uma percepção firme e serena da realidade, frente ao delírio, permitirá derrotar sua força. Na batalha da razão não há espaço para o discurso hipócrita esquizofrênico. O combate deve ser travado na sua origem, a semente deve ser destruída, antes de germinar. Se as raízes penetrarem no solo fértil, corremos o risco de sermos asfixiados por elas.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Referencia

PISANDELLI, Sergio Pedro. A hipocrisia no discurso.  http://spisandelli.blogspot.com/2020/12/a-hipocrisia-no-discurso.html. Acessado em 24/03/2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Alquimia 5G– Uma prática cotidiana

Alquimia é uma prática baseada no misticismo, que teve seu auge durante a Idade Média (século V até século XV) e se estendeu até grande parte da Idade Moderna (século XV até século XVIII, que finda com a Revolução Francesa de 1789), incorporando nas suas técnicas os conhecimentos relativos às ciências, artes e magia existentes nessas épocas. Entre seus principais objetivos se encontravam a obtenção do elixir da vida, que garantiria a imortalidade e cura das doenças do corpo, e a busca da pedra filosofal, que permitiria a transmutação de metais comuns como chumbo e estanho em ouro. Podemos inferir que esses objetivos proporcionariam ao ser humano alcançar a imortalidade e a riqueza infinita.

Na Idade Contemporânea, a ciência e as modernas tecnologias, tem promovido de forma intensa o aparecimento de novos alquimistas da razão e do saber, poderosos magos da comunicação que, utilizando-se do poder, alcance e penetração incomensuráveis dos seus equipamentos, os utilizam como uma nova pedra filosofal, cuja mais importante propriedade consiste em transformar a realidade concreta e objetiva, regida pela verdade, em espaços virtuais paralelos onde essa realidade pode ser manipulada, distorcida a vontade, e substituída por esquemas pré-determinados, moldados a formas e interesses nem sempre em sintonia com essa realidade concreta.

Esses modernos alquimistas não improvisam nas suas práticas. Possuem técnicas altamente desenvolvidas e comprovadamente eficazes, testadas e aprimoradas, dia após dia. São mestres da comunicação, doutores em dialética. São metódicos e profissionais. Nada fica ao azar. Àquilo que pode parecer absurdo para algumas mentes mais esclarecidas, passa a ser assimilado como verdade por milhares de outras mentes, assimilado e compartilhado, acreditado e defendido, a ponto de provocar mudanças comportamentais e atitudes desafiadoras, conflitivas e agressivas, que resultam em negação da realidade, segregação e conflitos entre pessoas, famílias, grupos e comunidades.

A nova pedra filosofal – sua estrutura

1)    O moderno alquimista da informação começa com a escolha de um assunto simples, único, concreto e relevante, de elevada importância para a comunidade. Este assunto passa a ser tema focal, objeto concentrador do pensamento. É definido como o inimigo a ser derrotado.

2)    A seguir procura demonstrar como e de que forma este assunto, impacta na comunidade. Compara um “antes dele” perfeito e harmônico com um presente e futuro sombrio e contaminado por esse assunto.

3)    Realiza a transposição de diversos outros males e prejuízos para o assunto escolhido. O tal do assunto passa a ser responsável por todas as mazelas e dores presentes.

4)    Incrementa sua importância. Exagera seu verdadeiro potencial promovendo sua transformação em fonte de diversos problemas e desgraças.

5)    Transforma seus efeitos em coisas torpes, de índole maléfica. O assunto passa a ser origem do mal.

6)    São divulgadas “noticias” e declarações de “fontes confiáveis” e de indivíduos “reconhecidos” confirmando o assunto e seus maléficos efeitos.

7)    A comunicação se transforma em um verdadeiro bombardeio de novas notícias e “novidades” sobre o mesmo assunto. Replica-se a informação de forma exaustiva. Multiplica-se por mil vezes mil.

8)    Promovem-se novas interpretações de especialistas, de “experts”, sempre direcionadas a ratificar o dano provocado pelo assunto escolhido.

9)    Tudo àquilo que não estiver de acordo com a força maléfica desse assunto, é escondido, ignorado, dissimulado, desmentido.

10)Procura-se, no passado situações onde o assunto possa ser aplicado, e utilizam-se estas situações para potencializa-lo.

11)Procura-se formar comunidades com pensamento convergente, com interesses comuns, para que esse assunto seja difundido, introjetado em outras comunidades, de forma exaustiva, até ser aceito como nova verdade.

O objetivo da transmutação, finalmente é alcançado. O moderno alquimista consegue transformar chumbo e estanho em reluzente ouro, admirado e cobiçado por todos àqueles que tiveram seu pensamento modificado pela magia da comunicação alquímica.

A mentira se sobrepõe a realidade, ao verosímil. Transmuta-se em nova verdade, a qual é replicada, triplicada, multiplicada. Invade e parasita nossas mentes até que, sugando a seiva que alimenta a razão e a evidência, termina por fincar suas raízes muito profundamente, no mais íntimo de nossos corações e mentes. Passamos a ser escravos da mentira. Somos parasitados por ela.

Para nossa esperança, existe um antidoto para este poderoso e corrosivo veneno. O respeito à verdade, o desprezo pela ignomínia. A rejeição sumária das práticas alquímicas transformadoras da verdade. Isso depende somente de uma atitude proativa de nossa parte: procurar e respeitar permanentemente a verdade, rejeitando qualquer proposta utópica de transformações alquímicas da realidade.  

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

   

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A hipocrisia no discurso

Antes de falarmos sobre a hipocrisia no discurso, me permito relatar um acontecimento histórico que certamente marcou um verdadeiro ponto de inflexão no desenvolvimento da humanidade, a qual teve, na sua evolução, momentos nos quais paradigmas solidamente enraizados foram substituídos por outros radicalmente diferentes.

A teoria Geocêntrica, postulada pelo astrônomo grego Claudio Ptolomeu (100 – 168) no início da Era Cristã, foi conceitualmente defendida em seu livro intitulado “Almagesto”. Ptolomeu, como resultado da observação do movimento dos astros no céu, concluiu que a Terra está posicionada no centro do Sistema Solar, e consequentemente os demais astros orbitariam ao redor dela, fixados sobre esferas concêntricas que girariam com diferentes velocidades. O Geocentrismo foi intensamente defendido pela Igreja Católica, pois apresentava diversos aspectos de passagens bíblicas, sendo chamados de hereges, e muitas vezes queimados em fogueiras, aqueles que dela discordavam.

Quatorze séculos se passaram (1.400 anos!), até que essa teoria Geocêntrica fosse contestada pelo matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que propôs uma outra estrutura do Sistema Solar, o Heliocentrismo. Nesta nova, e revolucionária concepção, Copérnico postula que a Terra e os demais planetas se movem ao redor do Sol, sendo este, o verdadeiro centro do Sistema Solar. A sucessão de dias e noites é uma consequência do movimento de rotação da Terra sobre seu próprio eixo. Este modelo (denominado de sistema copernicano), não foi aceito pela Igreja Católica, que adotava a teoria do Geocentrismo, elaborada por Ptolomeu. A Igreja Católica incluiu o livro “Das Revoluções dos Corpos Celestes”, onde Copérnico descrevia sua teoria, no Índex – a lista dos livros proibidos por heresia. O dogmatismo da igreja era tão forte, que questionar a perfeição divina era realmente uma atitude extremamente perigosa, para integridade pessoal.

O astrônomo Galileo Galilei (1564-1642), através de suas observações, foi o primeiro cientista a comprovar, de forma objetiva, que o sistema heliocêntrico de Copérnico estava solidamente fundamentado. Não obstante, em 1633, sob ameaça de excomunhão e morte pela Santa Inquisição, teve que negar formalmente as suas descobertas permanecendo suas convicções inabaladas[1]. 150 anos após a morte de Copérnico, o físico e matemático Isaac Newton (1642-1727) desenvolveu uma base cientifica, baseada em princípios fundamentais da física, para a gravitação dos planetas ao redor do Sol. Foi a comprovação definitiva do heliocentrismo. Apesar de ser comprovada de forma conclusiva, a teoria elaborada por Copérnico só viria a ser aceita pelo Vaticano em 1835, quando o papa Gregório XVI admitiu, e corrigiu, o erro dos seus antecessores. 300 anos se passaram até que a obra “Das Revoluções dos Corpos Celestes” fora retirada da lista dos livros censurados pela Santa Sé.

Este exemplo, extraído da história, está sendo utilizado por mim, não como crítica à Igreja Católica, nem aos Papas. Isso não vem ao caso nem é minha intenção. O objetivo é mostrar que, assim como esta, milhares de outras diversas situações, permeiam a humanidade, contaminando o verdadeiro saber e distorcendo a realidade dos fatos, com discursos falsos e negacionistas, que passam a ser aceitos como verdades incontestáveis.

É o discurso hipócrita, aquele que é afetado por um sentimento louvável que não se tem, que estabelece uma falsa devoção a princípios etéreos, sem sustentação sólida. Construído sobre uma coletânea de ideias e expressões recheadas de imposturas, fingimentos, simulação e falsidades. Verdadeira demonstração de virtudes ou evidências, inexistentes ou antagonistas daquelas que realmente permeiam os sentimentos.

O discurso hipócrita não é casual na sua origem. Está fundamentado na intencionalidade da ação e tem como objetivo distorcer a verdade, enganar, confundir, criar uma realidade paralela, negar a evidência dos fatos, que são substituídos por falsas e distorcidas imagens e afirmações. Esse negacionismo cria suas raízes na fertilidade propiciada pela ignorância do sujeito. Assim se sustenta, e desenvolve seus tentáculos inoculando seu veneno, subtraindo a capacidade de pensar.

Os venenos existem desde os primórdios da existência, e com muita dor e sofrimento, as pessoas aprenderam a reconhece-los e evita-los. Não são perigosos quando usados com sabedoria e bom senso. São úteis e necessários para a própria sobrevivência do ser humano. Antídotos foram descobertos e são utilizados para neutralizar seus efeitos.

O discurso hipócrita, é um poderoso veneno que possui a capacidade de subjugar as pessoas, dominar suas ações e controlar seu pensamento. Traz, na sua essência uma imensa energia subliminal, que direciona, aglutina e comanda. É mutante, adaptativo, maleável. Não existe antídoto para ele.

Há duas opções para enfrenta-lo:

A primeira consiste em despreza-lo em favor da verdade, abrindo os olhos a realidade objetiva, rejeitando radicalmente suas propostas e afirmações, arrancar suas raízes e destruir seus frutos e sementes.

A segunda é aceita-lo, e penetrar de mãos dadas na tenebrosa caverna do obscurantismo, dentro da qual dificilmente encontraremos, o caminho de retorno, correndo o risco de permanecer na penumbra para sempre.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.



[1] “e pur si muove” é uma locução italiana que significa: “e, contudo, ela move-se!" Esta frase foi pronunciada por Galileu depois de haver sido obrigado pelo Santo Ofício a abjurar da pretendida heresia de que a Terra gira no espaço sobre ele mesma, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008 - 2020  https://dicionario.priberam.org/e%20pur%20si%20muove [consultado em 24-12-2020].