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quarta-feira, 9 de março de 2022

Paternidade responsável e consumismo

 

Em fevereiro de 1999, escrevi um artigo para a revista “O CENECISTA”[1] a convite do então Superintendente da CNEC – CE, Prof. José Lúcio Ferreira de Melo. Transcrevo o mesmo hoje, 08 de março de 2022, ou seja, depois de transcorridos 23 anos, daquela data. A sua releitura me proporciona a oportunidade de refletir sobre o tema em epígrafe: “Paternidade responsável e consumismo”. Vamos, sem mais delongas ao referido texto:

         “O Brasil enfrenta mais uma das, até agora, infinitas crises econômicas e de credibilidade das suas instituições e lideranças. A estrutura financeira do sistema encontra-se abalada e sua instabilidade reflete-se no seio da população, castigando, preferencialmente, camadas cujas rendas são menores. A situação está tomando uma tal gravidade que até as chamadas classes favorecidas sentem, na própria carne, a dor de perder sua liberdade de consumir.

         Esse descalabro atinge, e não poderia ser de forma diferente, os setores produtivos, comercial e de serviços. Dentro destes últimos anos, não podemos deixar de destacar os estabelecimentos educacionais. As escolas estão sendo penalizadas de forma criminosa, retirando-se delas sua capacidade operacional, através do aumento contínuo de suas despesas sem poderem repassar esses custos para o lado das receitas.

         Hoje, está sendo colocado em xeque o futuro do Brasil, comprometendo a qualidade de ensino das crianças que serão nossos líderes amanhã.

         Essas crianças são nossos filhos, não os filhos dos outros. A responsabilidade pela formação dos futuros homens e mulheres é nossa, portanto devemos refletir sobre qual deve ser nossa postura como pais, frente a essa contingência.

         A escola de nossos filhos deve ser a melhor e mais completa possível. Deve ser aquela que tenha uma proposta pedagógica dirigida à formação do ser humano completo. Não simplesmente dirigida a preparar uma dúzia de alunos para serem campeões do vestibular. Nossa cobrança deve ser neste sentido, pois a oportunidade de formar nossas crianças somente tem caminho de ida. E quando passa, jamais se repetirá.

         Nós temos essa escola bem a nossa frente. Nossos filhos são seus alunos. E somos os responsáveis pela sua continuidade. É nossa obrigação moral lutar pela sua sobrevivência. E para isso devemos assumir o compromisso pela sua manutenção como modelo de excelência no ensino. Qualquer sacrifício vale a pena, pois é o futuro de nossos filhos que está em jogo.

         Devemos refletir profundamente sobre este assunto, principalmente na hora crítica em que comprometemos nossa renda em gastos que podem ser evitados. A escola é um investimento com o melhor retorno possível. O consumo é um veneno que nos mata lentamente tirando de nós toda a capacidade de honrar a paternidade responsável.

         Cada vez que utilizamos os cartões de créditos, cheques pré-datados, os crediários ou, até mesmo, o dinheiro vivo, devemos nos fazer estas perguntas: Já fiz o investimento mensal nos meus filhos? Meu compromisso com sua formação foi cumprido?

         Se a resposta for “ainda não”, devemos parar e pensar. Os impulsos de consumo devem ser refreados e nosso talão de cheques deve ser guardado. Devemos dar um basta à falsa ilusão de poder que a publicidade lapida em nossas mentes. Força e poder são decorrentes do orgulho que devemos sentir como pais responsáveis.

         A escola é a forja onde se modela o caráter de nossos filhos. Para que o resultado seja o desejado, devemos mantê-la acessa.

         E somos nós que alimentamos sua fornalha com carvão.

      Claramente, o mundo dá múltiplas cambalhotas, mudanças se sucedem em ritmo vertiginoso, não mais há “vestibular” e “cheque pré-datado”, mas há ENEM, PIX, TED, DOC e uma torrente de meios de estudo e pagamentos novos e ingeniosos. Muitos dos filhos de 23 anos atrás, são hoje pais corujas que levam diariamente seus pequenos às escolas modernas. Somente há uma coisa que permanece imutável no tempo: A paternidade responsável e o consumismo. Um consumismo exacerbado pelo modo atual de vida, pela facilidade de pagamento, pelas ofertas imperdíveis, pelos milagrosos produtos importados ou nacionais que nos oferecem facilidades e benesses incríveis. Tudo ao alcance da mão, no celular, no pagamento instantâneo, na entrega à domicílio. É necessário sobrepor a paternidade responsável ao consumismo, e lapidar em nossos filhos essa consciência, para que no futuro, sejam eles os novos pais responsáveis que possibilitem, com seus atos, a permanência do ser humano consciente de sua missão irrenunciável na vida.

        Vinte e três anos se passaram desde essa publicação. Meus filhos, estudantes aplicados, na época, são hoje profissionais de sucesso dos quais muito me orgulho. Tenho certeza de que muitos erros foram cometidos nesse tempo. Errar faz parte da vida. Porém uma coisa que jamais pode ser negligenciada é a paternidade responsável. O preço a pagar pela omissão, certamente será caro demais.

    

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.  



[1] Revista “O CENECISTA”. Fevereiro de 1999. Pag. 22

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Não haverá segunda vez

Não somente no Brasil, mas em todos os recantos do planeta existem milhares de pessoas que adotam uma posição negacionista comum frente as incontestáveis evidências que comprovam, pela ciência e pela evidência, que o vírus que provocou a pandemia mata pessoas. Em pensamento convergente, incorporam-se a estes sujeitos àqueles que enxergam uma conspiração maliciosa na adoção de medidas estatais para enfrentar os efeitos do Coronavirus assim como outros que contestam, a eficácia das vacinas, o aquecimento global, e outros temas por demais conhecidos.

Multidões de jovens, e não tão jovens, mostram-se incapazes de submeter-se a determinações restritivas das liberdades sociais, não pelo fato de serem inconsequentes, imprudentes, irresponsáveis ou levianos (tanto faz uma definição ou outra), mas como resultado de uma clara postura de denegação (ou renegação).

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a denegação não significa rejeitar ou negar um determinado fato ou situação. Renegar refere-se à recusa da percepção de uma evidência que se impõe no mundo exterior. É a evidência objetiva daquilo que está reprimido no inconsciente do sujeito.

Na denegação impõe-se um não explícito em contraposição a um sim reprimido. Devemos observar que um renegado, não afirma que uma determinada situação não existe, mas sua atitude está em contraposição a essa situação real. A terra é uma bola, porém minha posição está fincada no terraplanismo. Há evidências da esfericidade, porém defenderei a topologia plana.

Ao renegar das evidências aceito, inconscientemente, que a mesma existe. Sua atitude provoca uma profunda clivagem no seu comportamento: sabe da existência de um iminente perigo; a sua percepção do mesmo é concreta, porém, seu comportamento e suas atitudes o negam.

“O fumo mata milhões de pessoas, sei disso, porém, continuo fumando pois me traz prazer”.

Negar a pandemia e seus efeitos passa pela afirmação de que a mesma não existe, que é criação de indivíduos mal intencionados.

Mas como sustentar isso, frente ao caos instalado?

Não há como negar sua existência, rejeitar o óbvio, mostrado de forma permanente e continuada pelos diversos canais de comunicação de massa ao redor do mundo. O mundo em si, a própria humanidade, está frente a um perigo explicito, concreto e generalizado, que dificilmente encontra paralelo na história.

Àquele que denega esconde, nessa negativa, seu medo. Sua postura negacionista, mascara seu temor nas suas atitudes desafiadoras. Projeta, sobre si, uma imagem de força que no seu foro íntimo, não possui. Veste as roupas de super-herói sobre uma estrutura psíquica abalada pelo temor. Não há registros de experiências anteriores no seu subconsciente capazes de sinalizar o perigo de forma consistente. A realidade é visualizada como videogame. Uma realidade “virtual”, onde a vítima é “o outro”. Na sua percepção, os mortos não são seres humanos, mas escores registrados nos contadores estatísticos mostrados em gráficos coloridos e tabelas organizadas nas telas de altíssima definição dos aparelhos eletrônicos.

Existe uma dualidade de opiniões que se contrapõem permanentemente e exercem uma enorme pressão psíquica sobre esses sujeitos. A visão sanitarista, que conclama a população a se proteger, é permanentemente descontruída pela visão economista, que projeta imagens do desastre social resultante do fechamento das fontes de renda tais como comércio, indústria, escolas e similares. A desconstrução da realidade através dos mecanismos de distorção da informação, provocam um efeito de refração da verdade. Aquilo que percebemos não é real. A imagem real está deformada, e essa visão promove mecanismos psíquicos de rejeição dessa realidade.

“Nada irá me acontecer, milhares de pessoas pegaram uma simples gripe, os jogadores do meu time pegaram, passaram 10 dias em casa e estão jogando de novo...”

Frente a uma notícia desfavorável, que ofende ou compromete sua realidade, preferem matar o mensageiro e ignorar os perigos com que a realidade se apresenta.

Nem todas as pessoas reagem desta forma. Há aquelas que mergulham em depressão, aproveitando a oportunidade para se isolar do mundo. Outras são tomadas por angustias indescritíveis ou adotam posturas obsessivas de isolamento e bloqueio, transformando os necessários cuidados em rituais obsessivos de lavagem de mãos, utilização de álcool gel e máscaras protetoras, numa ação de permanente purificação e constrição, querendo se livrar de uma suposta culpabilidade frente ao perigo de serem contaminados. Indiscutivelmente, o ser humano, seja jovem ou maduro, deve conviver continuamente com níveis de insegurança ou incerteza decorrentes do cotidiano. Nada é totalmente seguro nem absolutamente perigoso. Sempre houve e haverá, em diferentes níveis, riscos a serem corridos. Porém, nas atuais circunstâncias, certamente os riscos ultrapassam todos os limites de segurança que possamos estabelecer. Ninguém está livre deles. Podemos, eventualmente, assumir riscos potencialmente menores, ao realizar certas atividades necessárias, atendendo todas as regras de proteção. Fazer compras em um supermercado ou numa farmácia, por exemplo. Faz parte das regras do jogo. Porém, ao participar com dezenas ou centenas de pessoas de uma balada, em um ambiente fechado, compartilhando espaços e utensílios com “conhecidos” ou “desconhecidos”, certamente não estaremos assumindo riscos potencialmente menores, mas jogando a roleta russa com uma arma carregada com 5 balas no tambor, de seis possíveis. Estamos sendo controlados por um mecanismo de massificação, onde as atitudes são adotadas pela identificação com “o outro”.

“Se meus amigos podem, eu posso. Se eles fazem, eu acompanho.”

Perde-se a singularidade racional no coletivo emocional. Não há individualidade de pensamento, avaliação de riscos, receio das consequências.

Marcha-se de forma anestesiada em direção ao caldeirão, sorrindo e desprezando todos os sinais de alerta. Caminha-se em direção ao inimigo, de peito aberto, sorrindo desafiante, na certeza de que nenhum projetil os abaterá.

Não haverá segunda vez. O fogo inimigo é cerrado e altamente eficiente. Só existe alternativa, se aceitamos permanecer na trincheira. Em silêncio. Aguardando pacientemente a luz do sol.          

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

As fantasias e a realidade

As fantasias permeiam nossas vidas, habitam em nós e determinam nossas atitudes. Não podemos nos isolar delas. São omnipresentes. Não é possível separar o mundo das fantasias do mundo concreto, objetivo. Interferem e deformam nossa percepção da realidade, numa continua e incessante procura de oferecer satisfação imediata aos nossos desejos. Parasitam e dividem nosso eu, se alimentam de nossas angustias.

Como isso é possível? Para que servem as fantasias? Como é possível que nos dominem em tal grau e intensidade? O que são essas tão poderosas e dominantes fantasias?

 

“Uma fantasia é a encenação, no psiquismo, da satisfação de um desejo imperioso que não pode ser saciado na realidade. Observemos, porém, que a fantasia pode, ao contrário, desempenhar o papel de estimulador do desejo, reavivá-lo e aumentar seu ardor. (Nasio, Juan-David, 2007, p.10)”.   

 

As fantasias influenciam continuamente nosso comportamento, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Tingimos os cabelos para ocultar os fios brancos a pesar deles permanecerem brancos na sua essência. Utilizamos cremes para eliminar rugas na pele, adquirimos roupas modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. Adquirimos aparelhos eletrônicos “Top Class”, com infinitos recursos que nunca utilizamos, para poder mostrar que estamos antenados no que há de mais moderno e que estamos surfando na onda mais atual. Utilizamos uma gravata “listrada” porque nos dá um ar mais descontraído e juvenil, adquirimos um carro esportivo e poderoso para impactar o nosso grupo social, enfim, construímos um “eu” paralelo, imaginário, fruto dos devaneios e comandos emanados de nossas fantasias. Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores.

Neste ponto, me permito relatar uma situação que marcou minha vida:

 

Um cabelereiro, que me atendeu durante mais de 20 anos, me perguntou:

- Seu cabelo é totalmente branco, porque não utiliza o produto “X” como xampu, vai escurecer o cabelo progressivamente e lhe dar um aspecto juvenil?

Minha resposta foi imediata:

- Deixe meu cabelo naturalmente branco, como ele é. Demorou 60 anos para ficar assim. Me permita respeita-lo na sua idade.

 

Não estou questionando a elegância, o perfume, o cosmético ou a forma de vestir. Pelo contrário, sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos.

Meu questionamento centra-se na perda total da identidade, como fruto do domínio absoluto de nossas vidas, pelas fantasias.

As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 

Bibliografia:

 

NASIO, Juan-David. A fantasia. O prazer de ler Lacan. [Tradução, André Telles e Vera Ribeiro] – Rio de Janeiro, Zahar,2007,