As fantasias permeiam nossas vidas, habitam em nós e determinam nossas atitudes. Não podemos nos isolar delas. São omnipresentes. Não é possível separar o mundo das fantasias do mundo concreto, objetivo. Interferem e deformam nossa percepção da realidade, numa continua e incessante procura de oferecer satisfação imediata aos nossos desejos. Parasitam e dividem nosso eu, se alimentam de nossas angustias.
Como
isso é possível? Para que servem as fantasias? Como é possível que nos dominem
em tal grau e intensidade? O que são essas tão poderosas e dominantes fantasias?
“Uma fantasia é a
encenação, no psiquismo, da satisfação de um desejo imperioso que não pode ser
saciado na realidade. Observemos, porém, que a fantasia pode, ao contrário,
desempenhar o papel de estimulador do desejo, reavivá-lo e aumentar seu ardor.
(Nasio, Juan-David, 2007, p.10)”.
As
fantasias influenciam continuamente nosso comportamento, sem percebermos que
por elas estamos sendo controlados. Tingimos os cabelos para ocultar os fios
brancos a pesar deles permanecerem brancos na sua essência. Utilizamos cremes
para eliminar rugas na pele, adquirimos roupas modernas e juvenis, fazemos
cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens
procurando um rejuvenescimento impossível. Adquirimos aparelhos eletrônicos
“Top Class”, com infinitos recursos que nunca utilizamos, para poder mostrar
que estamos antenados no que há de mais moderno e que estamos surfando na onda
mais atual. Utilizamos uma gravata “listrada” porque nos dá um ar mais
descontraído e juvenil, adquirimos um carro esportivo e poderoso para impactar
o nosso grupo social, enfim, construímos um “eu” paralelo, imaginário, fruto
dos devaneios e comandos emanados de nossas fantasias. Não aceitamos o passar
do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.
Não
nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos
impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos,
fortes e poderosos, superiores.
Neste
ponto, me permito relatar uma situação que marcou minha vida:
Um cabelereiro,
que me atendeu durante mais de 20 anos, me perguntou:
- Seu cabelo é
totalmente branco, porque não utiliza o produto “X” como xampu, vai escurecer o
cabelo progressivamente e lhe dar um aspecto juvenil?
Minha resposta
foi imediata:
- Deixe meu
cabelo naturalmente branco, como ele é. Demorou 60 anos para ficar assim. Me
permita respeita-lo na sua idade.
Não
estou questionando a elegância, o perfume, o cosmético ou a forma de vestir.
Pelo contrário, sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso
modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles
que amamos.
Meu
questionamento centra-se na perda total da identidade, como fruto do domínio
absoluto de nossas vidas, pelas fantasias.
As
marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e
sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.
As
fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os
sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.
O
que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e
controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em
marionetes, sem vida própria.
Você
pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.
Bibliografia:
NASIO,
Juan-David. A fantasia. O prazer de ler Lacan. [Tradução, André Telles e
Vera Ribeiro] – Rio de Janeiro, Zahar,2007,
Um comentário:
Bastante esclarecedor e coerente.
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