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sábado, 18 de dezembro de 2021

Onde está o lobo mau...?

 Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. O Autor

A sociedade contemporânea passa por mudanças contínuas, radicais e imprevistas, as quais se processam de tal forma aceleradas que frequentemente nos resulta praticamente impossível acompanhá-las na sua totalidade, visto o ritmo frenético, quase torrencial com que aparecem. Uma imensa maioria, acontece, evolui e desaparece sem que sequer tomemos, ao menos, conhecimento de sua existência. As pessoas, seus negócios, interesses, desejos e relacionamentos se multiplicam, desdobram, modificam, fusionam e/ou adotam as formas mais diversas possíveis. Os mecanismos, regras, normas e canais de comunicação e interação social são mutantes, interligados, multiformes. Se apresentam em multiplataformas e obtém alcance planetário quase imediato. As fronteiras e limitações físicas são abolidas em nome do progresso, da globalização e da liberdade de expressão. Atitudes éticas e comportamentais tradicionais são contestadas e substituídas por novas sem terem previamente passado pelo recomendável crivo de um julgamento crítico. Muitas destas novas atitudes possuem regras normativas (quando as possuem) cujos valores nem sempre se fundamentam numa razão ou estruturação sólida e consistente que justifiquem a mudança. As vezes são simples mudanças de tons, das mesmas cores. Outras, no entanto são radicais, a ponto de estabelecer verdadeiras revoluções estruturais na arquitetura da sociedade. 

As cidades, hoje transformadas em megalópoles, gigantescos e massivos conglomerados urbanos, padecem com suas ruas saturadas de veículos, seus enormes centros comerciais e imensas torres de cimento, aço e cristal que crescem e se expandem a cada instante, em todos os sentidos possíveis. Sempre maior, mais largo, mais alto, mais profundo, procurando utopicamente um pseudo-isolamento físico alienado. Nesse espaço privativo e isolado se procura, curiosamente e de todas as formas possíveis, permanecer continuamente interligado com o resto do mundo.  As distâncias se encurtam de tal forma, que é possível tomar o café da manhã em Fortaleza, almoçar em Brasília e jantar em Buenos Aires, tudo num mesmo dia. Paradoxalmente, um verdadeiro caos relacional, estabelece suas próprias regras, e as pessoas mergulham a cada dia, de forma mais e mais profunda nele. Nada permanece imutável na vida dos seres humanos. Tudo é permanente até ser substituído. A relação familiar é descartável! O amor eterno de hoje se transforma em ódio amanhã. Mata-se um filho porque incomoda no relacionamento entre os pais. Adota-se um animal, e abandona-se uma criança no depósito de lixo.

Certamente haverá pessoas que, levantarão suas vocês de indignação ao ler estas palavras. Outras reconhecerão, que de uma forma ou de outra já participaram de situações similares. Muitas, sem dúvida, as rejeitarão, taxando-as de exageradas e mentirosas.

Embora relevantes e sempre respeitadas por mim, essas opiniões individuais e divergentes não passam disso, pois não há possibilidades de fugir da realidade. Uma realidade que está presente no dia-a-dia, e vivenciada por nós, e somos parte inseparável dela. Não obstante essas avassaladoras mudanças, existem múltiplos elementos ocultos que fazem parte dessa sociedade em permanente e dolorosa revolução, que continuam solidamente enraizados nas suas entranhas, nos alicerces de sua estrutura, desde o início dos tempos e que, embora alterando continuamente sua roupagem, jamais deixaram de estar presentes, comprovando com sua presença que a pesar das mudanças, muitas coisas continuam iguais.

Estamos nos referindo a uma praga universal que se encontra entre as maiores e mais dolorosas mazelas sociais: a pedofilia, o abuso sexual de crianças. Ela se espalha em silêncio, se ramifica, muda de forma, de cor e de tamanho. É contaminante e parasita suas vítimas, sugando delas o sorriso, a alegria de viver e deixando nelas cicatrizes indeléveis que as marcarão para sempre.

Não obstante, e a pesar da gravidade da situação, podemos considerar que nem tudo está perdido. Pandora, na sua angustiante constatação do erro cometido, ainda tentou fechar a ânfora divina, mas era tarde demais: tudo tinha vazado dela, com a exceção da "esperança", que permaneceu presa junto a sua borda. Essa esperança se encontra hoje alojada em nossos corações e assim deve permanecer sempre, viva neles. Esta é a única forma de assegurar que o homem não será derrotado pelo mal, sucumbindo às dores e aos sofrimentos da vida.

Este trabalho não é uma denúncia, nem uma receita para julgar o pedófilo nem um manifesto destinado a acabar com a pedofilia, mas uma forma de trazer à tona uma verdade, nem sempre evidente: a necessidade de exercer uma paternidade responsável, requisito essencial para a sobrevivência do ser humano. Sermos pais responsáveis envolve muito mais que procriação, alimentação e satisfação de desejos de consumo dos filhos. É a tarefa mais nobre e complexa que o ser humano deve enfrentar, embora nem sempre sejamos perfeitamente conscientes disso. Essa paternidade requer como obrigação, a necessidade de olhar para nossos filhos com amor, e sermos capazes de abdicar de tudo aquilo que seja banal em nome desse amor.

Nossos filhos serão sempre aquilo que o destino prover, mas é nossa obrigação cuidá-los e orientá-los, para que esse destino consiga se tornar uma realidade plena de alegrias e felicidade. Ensinar e educar são coisas diferentes. A escola pode assumir a responsabilidade de ensinar, más a educação é um encargo que corresponde exclusivamente ao grupo familiar. É uma tarefa indelegável, impossível de ser terceirizada. Essa educação inclui, no seu âmago o cuidado pela prevenção da integridade física e mental das crianças. Deixa-la de lado, significa abdicar da função paterna.

Esperamos que a leitura deste texto permita acender uma luz na úmbria caverna do caos, e permita nos orientarmos, para que, junto aos nossos filhos encontremos o melhor caminho em direção à saída.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

domingo, 25 de abril de 2021

Somente vive quem permanece vivo

 

O medo do desconhecido bloqueia nosso pensamento, nos paralisa, impedindo-nos de fazer escolhas que, frequentemente, podem representar a diferença entre o sucesso e o fracasso, isto é, simbolicamente falando, entre a vida e a morte.[1]

  Em nosso artigo, denominado “Via de porre e via de levare”  consideramos que “Todos nós, como seres humanos, desde a concepção até o último alento, passamos por um processo contínuo de adequação e mudanças, sejam elas orgânicas, psíquicas ou sociais. Vivemos numa permanente construção e aperfeiçoamento do ser, com um objetivo primordial: sobreviver o quanto e o melhor que for possível.”

Quando crianças, sonhamos com a adolescência. As alterações orgânicas mudam nossas atitudes e desejos. Passamos a renegar o passado: “Não sou mais criança...” é frase repetida mil vezes. A vontade de correr supera a força de nossas pernas. A curiosidade se transforma em desafios que nem sempre estamos dispostos a enfrentar. O desejo nos inflama. As múltiplas quedas, aparam as arestas. Nossos corpos e nossas mentes, são dolorosamente ajustados até se transformarem em poderosos e jovens adultos. Avançamos a cada dia, nos apaixonamos, casamos, temos filhos e nossos filhos, retomam os sonhos das crianças. A vida, não tem retornos. Somente é possível avançar.

De forma análoga a uma pintura de alta complexidade artística, o homem desenvolve sua estrutura bio-psico-social por via de porre através do agregado de sucessivas camadas de conhecimentos, experiências e relacionamentos que, a cada instante, são incorporadas como resultante do processo de aprendizado contínuo ao qual estamos permanentemente submetidos. Tintas e cores aplicados ao longo da vida por múltiplos e diferentes artistas: pais, mestres, parentes, amigos, esposos, filhos, netos, enfim, todos e cada um daqueles que em algum momento interagem ou se cruzam em nosso caminho. Essa obra fica, a cada dia, mais perto do seu acabamento final, que coincide com o momento de nossa despedida[2].

A vida é uma construção permanente, porém, para continuar vivos se faz necessário remover obstáculos que bloqueiam a passagem das estruturas que a suportam. É necessário arrancar, por via de levare, na força do martelo e do cinzel, aquelas camadas que nos sufocam e nos aprisionam dentro de um bloco rígido. Não podemos permitir que o medo nos paralise, que o amargo nos envenene ou que o silêncio nos afaste da alegria de viver. Por trás dessas camadas grosseiras, dos cabelos grisalhos ou da pele sem viso, poderemos descobrir a figura suave, brilhante e formosa que permanece escondida no bloco sólido de nossa alma. O ser humano se modela a cada instante, seja por via de porre ou por via de levare. Na suavidade do pincel que dá os tons multicoloridos a nosso ser, ou na força do cinzel e do martelo, arrancando de nós a rigidez da pedra que sufoca nossos sentimentos e nossa alma.

Sigmund Freud disse que o inconsciente é algo que fica escondido em cada um, mas que se manifesta sem sabermos nos comportamentos. Ao ter outras prioridades que não seja você, a mensagem que fica registrada é que você não é tão importante, que não tem tanto valor e que os outros são mais relevantes e dignos da sua atenção e você vira uma personagem secundária na própria vida.
E isso reforça a mensagem de não ser capaz nem do básico por si mesma, cultiva o não merecimento, a insegurança, o autoabandono que provoca um vazio interior, que gera uma ferida na qual nada é capaz de suprir, tendo isso repercutido em todas as áreas da vida.
A pessoa sofre, se envolve em relacionamentos ruins, adquire hábitos compulsivos como comprar muitas roupas sem necessidade por exemplo, em busca de refúgio.[3]

A todo instante e independentemente de nosso tempo de permanência, vulgarmente conhecido como “idade”, somos fortemente influenciados pelas fantasias, sem percebermos que por elas estamos sendo controlados. Inconformados pelos fios grisalhos de nossos cabelos, os pintamos de forma nem sempre harmoniosa, seguindo a “tendência atual e retomando o viso da juventude”, sem aceitar que os fios permanecem brancos na sua essência. Utilizamos cremes milagrosas a base de produtos instantaneamente rejuvenescedores para eliminar rugas na pele, sem perceber que que a pele permanece a mesma.  Adquirimos roupas multicoloridas, modernas e juvenis, fazemos cirurgias plásticas, implantamos bolsas de silicone, fazemos lipos e modelagens procurando um rejuvenescimento impossível. [...]Não aceitamos o passar do tempo. Não reconhecemos a vida como ela é.

Não nos aceitamos como realmente somos. Não sentimos orgulho de “ser”. Somos impelidos pelas nossas fantasias a “parecer”, a sermos eternamente jovens, bonitos, fortes e poderosos, superiores. [...] sou totalmente a favor de cuidar de nossa aparência, de nosso modo de vida, da alegria de viver. De ficar “bonitos” para nós e para àqueles que amamos. [...]As marcas do tempo, devem servir como sinais de maturidade, experiencia e sabedoria. Somos o que somos, jamais o que parecemos.

As fantasias devem, sim, ocupar um espaço em nossas vidas, pois alimentam os sonhos e estimulam nossas caminhadas. Podem compartilhar nosso mundo. São benvindas.

O que não podemos é viver no mundo da fantasia. Jamais devem nos dominar e controlar nossos pensamentos, sob o risco de sermos transformados em marionetes, sem vida própria. Devemos aceitar a beleza real, a que nos identifica, àquela que possuímos em nossos corações. Não devemos vestir uma roupa para parecer jovens, mas devemos vesti-la para mostrar que permanecemos jovens, alegres, e orgulhosos de sermos bonitos. É necessário viver a vida, da forma que ela realmente é. Não é a idade que nos torna amargos. São nossas escolhas erradas. Não podemos aceitar o papel de coadjuvantes de nossa própria vida. É necessário sermos permanentes protagonistas. Nossas atitudes devem ser proativas. Nossa prioridade deve estar centrada em nossa felicidade. Devemos viver, para continuar vivos.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 



[1] https://spisandelli.blogspot.com/2020/11/medo-do-desconhecido.html

[2] http://spisandelli.blogspot.com/2020/11/via-di-porre-e-via-di-levare.html

[3] Ana Carolina Rodrigues. https://www.instagram.com/p/CNvqskdBFsT/

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ambição ou ganância?

 Refletindo sobre um evento acontecido dias atrás, envolvendo uma figura conhecida nacionalmente, que não interessa identificar, por motivos óbvios, lembrei de alguns comentários tecidos a respeito. Alguns deles, se referiam a essa pessoa como sendo ambiciosa. Outros, em câmbio, a qualificavam como gananciosa.

Frequentemente estas palavras são tomadas, de forma errônea, como sinônimos. Não são. Embora possam, em uma primeira interpretação, serem assim consideradas, ambas se referem a coisas muito diferentes.

Vamos começar pela palavra ambição. O dicionário Aurélio[1] a define como: Desejo veemente de alcançar aquilo que valoriza os bens materiais ou o amor-próprio (poder, glória, riqueza, posição social, etc.).

Já a palavra ganância, é definida no mesmo dicionário como: Ambição de ganho. Ambição desmedida.

Então, ambição e ganância significam, de acordo com o dicionário, a mesma coisa! Novamente não. A diferença essencial está nos objetivos, na qualidade e na intensidade das ações.

Ambição é uma palavra que deriva da expressão latina “ambire”, que quer dizer “mover-se com liberdade”. Uma pessoa com “ambire” está determinada a procurar seu destino com liberdade, estabelecer e seguir seus próprios caminhos, possuir uma vontade real e genuína de obter sucesso e alcançar seus objetivos, lutando com energia para tanto. A ambição leva essa pessoa a ser proativa, tomar a iniciativa nas suas ações, ser criativa, sonhadora. O ambicioso tem o desejo de mudar o mundo, tudo se apresenta possível para ele. Sabendo da existência de riscos, os assume corajosamente. Ser ambicioso não é ser egoísta ou egocêntrico. É possuir a capacidade de arriscar e enfrentar os obstáculos, embora correndo o risco de nem sempre se dar bem.

Já a ganância, tem uma relação direta com um forte sentimento de cobiça, de avidez, de avareza. Explicita um desejo de obter ganhos extremos, exorbitantes. Traduz um desejo de possuir mais, de receber mais, de atesourar tudo àquilo que for possível, e até mais.

A ganância é fortemente egoísta, fruto de um sentimento egocêntrico de ter mais que os outros, de insatisfação recorrente. Não basta ter muito, é necessário ter tudo, o que é de direito e àquilo que é dos outros.

Quem é ambicioso, quer sempre melhorar, possuir mais, ficar em evidência. Porém conhece e respeita os limites e os valores éticos e morais. Não abre mão da honestidade das ações para alcançar seus objetivos. Não falta com a palavra empenhada. Evita prejudicar os outros. Não fere pessoas ou animais, preserva seu habitat. Sabe, de forma clara e consciente que forma parte dele, e dele precisa para usufruir dos seus ganhos.

O ganancioso, pelo contrário passará por cima de todos e de tudo, para conseguir seus objetivos a qualquer custo, sem respeitar limites éticos ou morais.

As ações e atitudes diferenciam as pessoas ambiciosas das gananciosas. As vezes evidenciadas de forma clara, outras nem tanto. Não há problemas em sermos ambiciosos ao traçar nossos objetivos e metas. Desta forma obteremos ganhos sólidos e consistentes. Seremos sempre respeitados e elogiados, contrariamente àqueles que escolhem a ganância como meio de vida.

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

 



[1] 5ª. Edição do Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. ©2010, Regis Ltda. (Versão eletrônica).

terça-feira, 10 de novembro de 2020

O pequeno caderno azul

 

O principal combustível que impulsiona as organizações modernas rumo ao sucesso é, sem dúvida nenhuma, a informação. Frente à avalanche de dados que ingressam a cada instante nas mesmas, relativos à suas atividades relacionais internas e externas não cabe, aos gestores, outra alternativa que não seja a de promover um adequado tratamento e seleção dos mesmos para poder transformá-los em informação que permita sua adequada compreensão e aproveitamento.

Dados brutos, não significam informação. São números, palavras, que devem ser organizados, processados e analisados dentro do contexto em que foram obtidos para serem compreendidos e apreciados como informação.

Frequentemente nos deparamos com pessoas que, na ânsia de antecipar-se aos acontecimentos, nos entregam dados brutos, soltos, muitas vezes sem nexo aparente, pretendendo que sejam entendidos e apreciados como informação. Essa atitude provoca certamente muito desconforto e às vezes nos induz ao erro, como consequência de interpretações equivocadas desses dados brutos, não processados.

Estas reflexões me transportam no tempo, e me lembram de uma história que me foi contada por um grande executivo, diretor de uma empresa multinacional, e junto ao qual tive a oportunidade e honra de trabalhar durante alguns anos da minha juventude. Essa história foi tão oportunamente colocada que marcou profundamente minha vida, provocando uma mudança muito positiva na minha forma de proceder.

 Conta-se que uma vez, há muitos anos atrás, o proprietário de um armazém de secos e molhados, localizado em uma pequena cidade do interior, procurou um assistente para lhe ajudar a organizar seus negócios, que, com o decorrer do tempo, estavam melhorando e crescendo de tal forma que já não mais era possível cuidar deles sozinho. Apresentaram-se dois candidatos: João e Carlos.

O João apresentava uma personalidade jovial e irrequieta, interessado por tudo, perguntava ansiosamente sobre diversos aspectos do negócio, mostrando curiosidade e querendo informações das atividades do dia-a-dia.

O Carlos, em contrapartida apresentava-se mais calado, ouvindo em silêncio as palavras do seu Nonato, o proprietário, atento aos detalhes e perguntando apenas sobre alguns aspectos da organização.

Ambos encantaram seu Nonato, mas como não era possível para ele ficar com ambos, foi decidido que haveria uma atividade, cujo resultado final permitiria decidir quem ficaria com o emprego.

O armazém ficava aproximadamente a 50 metros de uma estrada de terra. Nesse momento uma tropa de carretas estava passando e seu Nonato entregou a seguinte tarefa para ambos os candidatos: Verificar rapidamente de quantas carretas estava composta a tropa.

Ambos os candidatos saíram rapidamente para cumprir uma missão tão simples, não compreendendo onde estaria a dificuldade. Um minuto depois, João retornou ofegante dizendo:

- Seu Nonato, foi fácil! São exatamente seis carretas.

- Obrigado João – respondeu o proprietário, perguntando a seguir:

- E quantos bois puxam cada carreta?

João, feliz de ter acertado na resposta voltou correndo até a estrada para cumprir a segunda tarefa. Nessa correria cruzou com o Carlos que voltava calmamente ao armazém, com um pequeno caderno azul na mão.

Ambos retornaram quase ao mesmo tempo. Seu Nonato ofereceu uma cadeira a cada um, e perguntou ao Carlos a mesma coisa que tinha perguntado ao João. Quantas carretas compõem a tropa? Carlos respondeu calmamente, como era seu estilo: são seis carretas, puxadas por quatro bois cada uma.

João, ansioso, confirmou:

- É isso mesmo, Seu Nonato. Cada carreta é puxada por quatro bois

- Perfeito - diz Seu Nonato – Que mais tem a dizer João?

João, satisfeito respondeu:

- Por enquanto nada mais, Seu Nonato. Porém se quiser posso ir novamente para verificar qualquer coisa que o senhor desejar.

- Não. Não será necessário – respondeu Seu Nonato. Dirigindo-se ao Carlos, perguntou:

- E você, Carlos, tem alguma coisa a agregar?

- Sim, Seu Nonato, respondeu abrindo seu caderno azul e lendo suas anotações. As carretas estão transportando sacas de farinha e milho, 20 de cada. São para vender no Mercado Central e são propriedades do senhor Antônio do Vale. Está aproveitando que amanhã haverá uma festa na cidade, para levar a mercadoria e vende-la. Parece que existe grande demanda dos produtos e espera obter um preço bom, aproximadamente R$ 50,00 pela saca de milho e R$ 35,00 pela de farinha. O senhor poderia aproveitar e vender sua mercadoria também.

- Muito bom Carlos! Excelente relato. O cargo é seu.

João, não satisfeito com a decisão a questionou, perguntando para seu Nonato:

- Porque o senhor escolheu o Carlos, que demorou muito mais que eu para trazer a resposta, e que, além disso, fica dando opiniões sobre seu negócio?

Seu Nonato, calmamente respondeu: - Precisamente por isso que você está questionando, João.

O Carlos demorou mais porque ficou recolhendo outras informações que poderiam ser úteis no futuro, como realmente o foram. Já, no seu caso, você ficou observando somente aquilo que eu tinha perguntado. Ou seja, para fornecer as mesmas informações que o Carlos nos brindou, você deveria ter necessidade de ir e voltar diversas vezes até a tropa de carretas, o que teria ocasionado uma espera muito maior.

Vemos em João, o modelo dos colaboradores que colhem dados, em resposta às demandas que lhe são realizadas e os fornecem em estado bruto.

Já no Carlos identificamos o tipo de colaboradores que obtém os dados, os registram, os processam e os transformam em informação, muito mais útil para quem a recebe.

O sucesso de um empreendimento está relacionado com a forma em que as pessoas tratam as informações que estão disponíveis. E como apresentam os resultados.

Devemos aprender com o Carlos. Sermos proativos, nos antecipando aos acontecimentos, para estarmos preparados de forma adequada aos desafios que nos serão lançados.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

A força do bambu chinês

 

No texto “Profissionalismo e competência”, destacamos uma frase de Eugênio Mussak que, ao voltar sobre ela, nos permitirá fazer uma reflexão sobre os projetos que envolvem mudanças de comportamento nas organizações.

“Você só muda o comportamento quando muda o pensamento”.

Mas será que é possível mudar o pensamento das pessoas de forma simples assim? Quebrar seus paradigmas, profundamente arraigados e determinantes de atitudes e pensamentos? Desmontar as estruturas mentais, construídas ao longo de anos de aprendizado, e substituí-la por outra?

Certamente não é tarefa pequena nem possível de ser realizada do dia para a noite. Requer perseverança e uma forte dose de paciência, para saber escolher o momento para preparar o terreno, semear e esperar pela germinação e desenvolvimento da semente plantada.

Um ensinamento valioso pode-se extrair da planta do bambu chinês.

 Depois de lavrar a terra para retirar todas as pedras e ervas daninhas, as sementes do bambu são plantadas cuidadosamente em sulcos profundos, abertos no terreno previamente adubado e umedecido.

Durante quatro longos anos não se observa nada, exceto o lento desabrochar de um diminuto e frágil caule, brotando do bulbo enterrado. O crescimento está oculto, nas profundezas do terreno, restrito à formação de uma fibrosa e maciça estrutura de raiz, que ao se afirmar, tanto vertical quanto horizontalmente na terra, estabelece uma forte estrutura de sustentação futura da planta em gestação.

Finalmente, depois de cinco anos de espera, o bambu chinês cresce, forte, poderoso, firmemente assentado na sua base, resistente e flexível, até atingir alturas que podem superar os vinte metros.

 É necessário acreditar no trabalho de preparação realizado e na força da semente plantada. Devemos ter a paciência necessária para saber esperar o tempo certo para que a semente germine.

Mudar a forma de pensar e de agir das pessoas requer tempo, confiança, paciência e principalmente acreditar que essa mudança é possível.

Se pretendemos mudar comportamentos nas pessoas, sensibilizá-las para novos desafios, devemos nos lembrar do bambu chinês.

Não podemos desistir frente às inúmeras e enormes barreiras que encontraremos pela frente. Devemos prosseguir e acreditar no trabalho realizado; é necessário saber esperar o tempo certo pelo resultado almejado. Que certamente virá a despeito de todas essas dificuldades.

 Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

O feixe de lenha

 

Existem diversos exemplos de organizações onde o relacionamento entre o patriarca, geralmente fundador e gestor maior, e seus herdeiros não é favorável a uma transição adequada e construtiva que permita a continuidade e prosperidade dos negócios.

Ciúmes, interesses desencontrados, conflitos pessoais, egos inflados e rivalidade conspiram contra a perpetuação da estrutura organizacional, provocando muitas vezes divisões e rachas que enfraquecem sua solidez e comprometem seu futuro.

Durante uma palestra Clima Organizacional, da qual participei com interesse, foi contada a seguinte história, que considero oportuna reproduzir, embora não tenha maiores informações sobre sua autoria.

 Conta-se que um próspero empresário, dono de muitas propriedades, estava gravemente enfermo. Um assunto que muito lhe preocupava era o clima de desavença que reinava entre seus quatro filhos, herdeiros de sua fortuna. Pensando em dar-lhes uma lição, ele os convocou para fazer-lhes uma revelação importante.

Sentado numa cadeira de balanço, o pai os recebeu carinhosamente na sua casa de campo. Com voz calma, chamou-os para mais perto e comunicou-lhes a seguinte decisão: “Como vocês sabem, estou ficando velho e cansado e creio que não me resta muito tempo de vida. Por isso, vos convoquei aqui para avisá-los que vou deixar todos os meus bens para apenas um de vocês”.

Os filhos, surpresos, entreolharam-se e ouviram em silêncio o restante que o pai tinha para lhes dizer: “Vocês estão vendo aquele feixe de gravetos ali, encostados naquela porta? Àquele que conseguir partir o feixe ao meio, apenas com as mãos, este será meu herdeiro”.

Cada um deles, por sua vez, teve a sua chance de tentar quebrar o feixe, mas nenhum, por mais esforço que fizesse, foi bem sucedido na sua tentativa.

Indignados com o pai, que lhes propusera uma tarefa impossível, começaram a reclamar. Foi quando o fazendeiro pediu o feixe e disse que ele mesmo iria quebrá-lo. Incrédulos, os filhos deram o feixe de gravetos para o pai, que foi retirando, um a um, os gravetos, quebrando-os, separadamente, até não mais restar um único graveto inteiro. E depois concluiu: “Eu não tenho o menor interesse em deixar os meus bens para só um de vocês. Eu quero, na verdade, que vocês, juntos, sejam os sucessores do meu trabalho, com garra, dedicação, e acima de tudo, repleto de amor”

Disse, ainda: “Enquanto permanecerem juntos e unidos, nada poderá pôr em risco aquilo que durante tanto tempo foi construído para vocês. Ninguém poderá quebrá-los. Mas se continuarem a agir de forma individualista e independente, serão facilmente quebrados, pois individualmente, são tão frágeis quanto cada um desses gravetos”.

Sem dúvida, a lição do velho empresário, pode ser aplicada a muitos casos de relacionamento entre patriarcas e herdeiros, e merece, certamente, uma reflexão mais profunda, por parte daqueles que, como consequência dos próprios arroubos da juventude, procuram o sucesso individual e egoísta, desprezando tudo aquilo que foi sedimentado ao longo de anos e mais anos de trabalho e esforço pelas pessoas que deram forma a essa organização que está preste a mudar de comando.

Os interesses pessoais devem, frequentemente, serem postos de lados, em benefício de interesses comuns que, certamente, refletirão em maiores oportunidades e benefícios futuros. Para tanto, é necessário incorporar uma grande dose de humildade aos egos individuais e reconhecer que, de forma análoga aos gravetos, a força decorre da união.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

Envolvimento ou comprometimento?

 

Quando numa organização é lançado um desafio, ou se faz necessário enfrentar uma situação atípica, sempre surge uma diversidade de pessoas dispostas a colaborar para o sucesso da empreitada.

Cada uma a sua forma e com seu próprio estilo. Aparecem aqueles muito envolvidos e outros que nem tanto. Mas também existem os realmente comprometidos com os resultados, que lutam, se esforçam e arrancam leite de pedra, para corresponder com as expectativas. Isso me faz pensar na história da feijoada na fazenda do interior do Ceará. Vale a pena ler.

 Numa fazendinha, no interior do Ceará, os bichos comentavam com muita animação as últimas notícias. Parece que haveria uma grande festa para comemorar o aniversário do proprietário, seu Titonho. Nessa festa, seria oferecida uma feijoada daquelas, para ninguém botar defeitos. Com tudo o que tem direito. O alvoroço era total, todos os bichos queriam participar, pois gostavam muito do seu Titonho.

Robério, o galo de raça, sacudindo suas penas e rebolando a crista, subiu até a parte mais alta do poleiro e começou a cantar como nunca o tinha feito na vida. Era Co... Co...Cooooooo para todos os lados.

Por sua vez, as galinhas, que eram mais de 50, se juntaram e ciscando para aqui, ciscando para lá, acertaram que a melhor forma de colaborar era dobrando a produção de ovos. E lá se foram direto para os ninhos. Foi uma chuva de ovos. Todo mundo se esforçando para fazer o melhor: botar ovos e mais ovos.

Somente uma coisa parecia que estava errada. Sentado num canto da parede, com a cabeça baixa e os olhos melancolicamente úmidos, estava Romão, o porquinho.

Catarina, a galinha mãe, se aproximou e perguntou:

- Mas Romão. O que você tem? Todos os animais estão muito felizes com a proximidade da festa, alegres, colaborando, dando o melhor de si, e tu estás ali, triste, deprimido.

Romão, com voz triste respondeu uma pergunta com outra pergunta:

- Me diga uma coisa, Catarina. Existe algum motivo para estar alegre?

- Pois claro – respondeu a penosa. A festa de aniversário!

- Qual será o prato principal? – perguntou Romão, suspirando.

- Feijoada!

- Pois é, Catarina. Feijoada é feita com costelinha de porco, orelha de porco, mocotó de porco...

- Meu santo ovo de páscoa! Respondeu Catarina... estou entendendo.

- Pois é. Para essa feijoada dar certo, é necessário que eu forneça todos esses ingredientes.

Esta história nos permite visualizar claramente a diferença entre envolvimento e comprometimento.

Os animais estavam, na realidade, altamente envolvidos na preparação da festa.

Robério, no poleiro cantando de galo, na sua, fazendo alarde e se mostrando para todos. As galinhas, mostrando seu envolvimento, multiplicando a produção de ovos, que pouco tem a ver com preparar uma feijoada.

Já o Romão, esse sim estava comprometido. Para que a feijoada pudesse ter sucesso, ele deveria dar tudo de si, que nesta história é a própria vida.

Nas organizações é muito comum nos depararmos com esta situação. Frente aos desafios encontramos aqueles que ficam alardeando, cantando de galo, lá em cima do poleiro, “mostrando serviço”. Outros ficam “fazendo sua parte”, botando ovos aos montes, sem perceber que esse esforço a nada conduz, pois não é de “ovos” que a organização está precisando nesse momento.

Finalmente existem aqueles que, como o Romão, são realmente comprometidos com os resultados. Que dão tudo de si para o sucesso do empreendimento. Que lutam para que os resultados apareçam, sem se importar com preço que devem pagar.

Essa é a diferença entre o envolvimento, superficial e aparente e o comprometimento, real e profundo.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

Executivo Cenoura, ovo ou café?

 

Durante uma reunião numa grande empresa na qual, durante muitos anos, prestei serviços de consultoria, fiquei surpreso com as lamúrias de um executivo da área comercial, queixando-se do alto grau de dificuldade que estava enfrentando por conta da forte concorrência que se apresentava mais e mais agressiva a cada dia.

Chegou a dizer que estava a ponto de jogar a toalha, pois não tinha mais paciência, estava cansado de lutar. Cada vez que conseguia resolver um problema, outro surgia, como por encanto, complicando cada vez mais as coisas.

Essa atitude, negativa e preocupante, particularmente por vir de um executivo que deve estar preparado para enfrentar desafios, me fez lembrar uma história[1], que se ajusta perfeitamente a esta situação, e que relatei para ele:

 

Uma filha se queixou a seu pai sobre sua vida atribulada e de como as coisas estavam difíceis para ela. Já não sabia mais o que fazer para continuar e queria desistir. Estava cansada de combater, diariamente, resolvendo um problema atrás do outro.

Seu pai, que gostava muito de cozinhar a levou até a cozinha e pediu para observar o que aconteceria a seguir. Na sua frente encheu três pequenas panelas de água, e colocou na primeira várias cenouras, na segunda, três ovos e, na última, uma grande colher de pó de café.

Sentou-se calmamente com a filha a seu lado e aguardou durante alguns minutos até que tudo fervesse. A filha, impaciente, exalou um suspiro e esperou, querendo imaginar o que ele estaria fazendo, ou querendo demonstrar.

Ao observar as panelas com água já fervente, ele apagou o gás. Pegou as cenouras e as colocou numa tigela, a seguir retirou os ovos e os colocou em outra tigela e finalmente pegou um pouco do café com uma concha e encheu uma xícara.

Virando-se para a filha perguntou sobre o que ela estava vendo. A filha, intrigada, respondeu: cenouras, ovos e café.

Ele as trouxe para mais perto e pediu para experimentar as cenouras. Ela obedeceu e observou que estavam macias. Ele, então, pediu que pegasse um ovo e o quebrasse. Ela assim o fez e depois de retirar a casca verificou que o ovo tinha endurecido com a fervura. Finalmente, ele lhe pediu que tomasse um gole de café. Ela sorriu ao provar e sentir seu delicioso aroma.

Curiosa, perguntou: O que significa isto, pai? Ele, calmamente, explicou que cada elemento havia enfrentado a mesma adversidade, água fervendo, mas que cada um reagira de maneira muito diferente.

A cenoura entrara na água forte, firme, inflexível, mas depois de ter sido submetida à água fervendo amolecera e se tornara frágil.

Os ovos eram frágeis, sua casca fina havia protegido o líquido interior, mas depois de terem sido fervidos na água, seu interior se tornara mais rijo.

O pó de café, contudo, era incomparável; depois que fora colocado na água, ao ferver, teve a capacidade de mudar a própria água.

Ele perguntou à filha:

- Qual deles é você, minha querida? Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde? Você é como a cenoura que parece forte, mas com a dor e a adversidade murcha, torna-se frágil e perde sua força? Ou será que você é como o ovo, que começa com o coração maleável, mas depois de alguma perda ou decepção se torna mais duro, apesar de que a casca permanece a mesma? Ou você é como o pó de café, capaz de transformar a adversidade em algo melhor ainda do que ele próprio?

Nós somos os únicos responsáveis pelas próprias decisões. Cabe a nós, somente a nós, decidir se a crise irá ou não afetar nosso rendimento profissional, nossos relacionamentos pessoais, nossa vida. Ao ouvir outras pessoas reclamando da situação, ofereça sempre uma palavra positiva. Mas você precisa acreditar nisso. Confiar que você tem capacidades suficientes para superar os desafios.

Lembre toda vez que estiver na frente de uma xícara de café:

 

“Nossa vida carece de sentido se não tivermos a capacidade de mudar as circunstâncias adversas que devemos enfrentar a cada dia”.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.



[1] O autor desta história, lamentavelmente, não é de nosso conhecimento.