terça-feira, 10 de novembro de 2020

O pequeno caderno azul

 

O principal combustível que impulsiona as organizações modernas rumo ao sucesso é, sem dúvida nenhuma, a informação. Frente à avalanche de dados que ingressam a cada instante nas mesmas, relativos à suas atividades relacionais internas e externas não cabe, aos gestores, outra alternativa que não seja a de promover um adequado tratamento e seleção dos mesmos para poder transformá-los em informação que permita sua adequada compreensão e aproveitamento.

Dados brutos, não significam informação. São números, palavras, que devem ser organizados, processados e analisados dentro do contexto em que foram obtidos para serem compreendidos e apreciados como informação.

Frequentemente nos deparamos com pessoas que, na ânsia de antecipar-se aos acontecimentos, nos entregam dados brutos, soltos, muitas vezes sem nexo aparente, pretendendo que sejam entendidos e apreciados como informação. Essa atitude provoca certamente muito desconforto e às vezes nos induz ao erro, como consequência de interpretações equivocadas desses dados brutos, não processados.

Estas reflexões me transportam no tempo, e me lembram de uma história que me foi contada por um grande executivo, diretor de uma empresa multinacional, e junto ao qual tive a oportunidade e honra de trabalhar durante alguns anos da minha juventude. Essa história foi tão oportunamente colocada que marcou profundamente minha vida, provocando uma mudança muito positiva na minha forma de proceder.

 Conta-se que uma vez, há muitos anos atrás, o proprietário de um armazém de secos e molhados, localizado em uma pequena cidade do interior, procurou um assistente para lhe ajudar a organizar seus negócios, que, com o decorrer do tempo, estavam melhorando e crescendo de tal forma que já não mais era possível cuidar deles sozinho. Apresentaram-se dois candidatos: João e Carlos.

O João apresentava uma personalidade jovial e irrequieta, interessado por tudo, perguntava ansiosamente sobre diversos aspectos do negócio, mostrando curiosidade e querendo informações das atividades do dia-a-dia.

O Carlos, em contrapartida apresentava-se mais calado, ouvindo em silêncio as palavras do seu Nonato, o proprietário, atento aos detalhes e perguntando apenas sobre alguns aspectos da organização.

Ambos encantaram seu Nonato, mas como não era possível para ele ficar com ambos, foi decidido que haveria uma atividade, cujo resultado final permitiria decidir quem ficaria com o emprego.

O armazém ficava aproximadamente a 50 metros de uma estrada de terra. Nesse momento uma tropa de carretas estava passando e seu Nonato entregou a seguinte tarefa para ambos os candidatos: Verificar rapidamente de quantas carretas estava composta a tropa.

Ambos os candidatos saíram rapidamente para cumprir uma missão tão simples, não compreendendo onde estaria a dificuldade. Um minuto depois, João retornou ofegante dizendo:

- Seu Nonato, foi fácil! São exatamente seis carretas.

- Obrigado João – respondeu o proprietário, perguntando a seguir:

- E quantos bois puxam cada carreta?

João, feliz de ter acertado na resposta voltou correndo até a estrada para cumprir a segunda tarefa. Nessa correria cruzou com o Carlos que voltava calmamente ao armazém, com um pequeno caderno azul na mão.

Ambos retornaram quase ao mesmo tempo. Seu Nonato ofereceu uma cadeira a cada um, e perguntou ao Carlos a mesma coisa que tinha perguntado ao João. Quantas carretas compõem a tropa? Carlos respondeu calmamente, como era seu estilo: são seis carretas, puxadas por quatro bois cada uma.

João, ansioso, confirmou:

- É isso mesmo, Seu Nonato. Cada carreta é puxada por quatro bois

- Perfeito - diz Seu Nonato – Que mais tem a dizer João?

João, satisfeito respondeu:

- Por enquanto nada mais, Seu Nonato. Porém se quiser posso ir novamente para verificar qualquer coisa que o senhor desejar.

- Não. Não será necessário – respondeu Seu Nonato. Dirigindo-se ao Carlos, perguntou:

- E você, Carlos, tem alguma coisa a agregar?

- Sim, Seu Nonato, respondeu abrindo seu caderno azul e lendo suas anotações. As carretas estão transportando sacas de farinha e milho, 20 de cada. São para vender no Mercado Central e são propriedades do senhor Antônio do Vale. Está aproveitando que amanhã haverá uma festa na cidade, para levar a mercadoria e vende-la. Parece que existe grande demanda dos produtos e espera obter um preço bom, aproximadamente R$ 50,00 pela saca de milho e R$ 35,00 pela de farinha. O senhor poderia aproveitar e vender sua mercadoria também.

- Muito bom Carlos! Excelente relato. O cargo é seu.

João, não satisfeito com a decisão a questionou, perguntando para seu Nonato:

- Porque o senhor escolheu o Carlos, que demorou muito mais que eu para trazer a resposta, e que, além disso, fica dando opiniões sobre seu negócio?

Seu Nonato, calmamente respondeu: - Precisamente por isso que você está questionando, João.

O Carlos demorou mais porque ficou recolhendo outras informações que poderiam ser úteis no futuro, como realmente o foram. Já, no seu caso, você ficou observando somente aquilo que eu tinha perguntado. Ou seja, para fornecer as mesmas informações que o Carlos nos brindou, você deveria ter necessidade de ir e voltar diversas vezes até a tropa de carretas, o que teria ocasionado uma espera muito maior.

Vemos em João, o modelo dos colaboradores que colhem dados, em resposta às demandas que lhe são realizadas e os fornecem em estado bruto.

Já no Carlos identificamos o tipo de colaboradores que obtém os dados, os registram, os processam e os transformam em informação, muito mais útil para quem a recebe.

O sucesso de um empreendimento está relacionado com a forma em que as pessoas tratam as informações que estão disponíveis. E como apresentam os resultados.

Devemos aprender com o Carlos. Sermos proativos, nos antecipando aos acontecimentos, para estarmos preparados de forma adequada aos desafios que nos serão lançados.

 

Você pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.

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