Um
amigo me relatou uma história interessante:
“Hoje,
ao chegar ao escritório, percebi que tinha deixado meu celular em casa. Fiquei
paralisado. Uma sensação de angustia começou a oprimir meu peito. O que fazer?
Senti-me perdido no meio do oceano. Estava suando frio. Respirei fundo, e tomei
uma decisão arriscada. Vou passar o dia sem celular! Se alguém quiser entrar em
contato comigo, terá que encontrar algum outro meio para se comunicar. Durante
a jornada, recebi diversas ligações, encaminhadas ao telefone fixo da empresa.
Quase todas elas começaram assim:
- Liguei para teu celular e parece que está desligado. Está havendo algum
problema?”
Nesse
momento, parei para meditar sobre o assunto. Há poucos anos atrás nem sequer
existia telefone celular... E hoje, é quase impossível viver sem ele. O celular
virou prótese humana. Ele permanece grudado em nós. Analogamente a uma prótese
dental que, durante a noite, é deixada dentro de um copo d’água. O celular é
deixado ligado, sobre a mesa de cabeceira. A justificativa é: “... alguém
pode querer ligar para mim...”. Dessa mesma forma, toda a parafernália
eletrônica que hoje nos acompanha a cada instante durante nosso dia-a-dia.
Estamos “vestidos” de aparelhos eletrônicos. Não conseguimos nos desgrudar
deles.
Parece-me
oportuno propor uma breve reflexão sobre esta “e-droga” que está provocando uma
adição quase incontrolável nas pessoas. Embora possa parecer uma ideia
estapafúrdia e descabida, é necessário estabelecer critérios rígidos e
limitativos sobre as pessoas que participam de reuniões presenciais de trabalho,
atendem em consultórios, assistem palestras, dirigem veículos, almoçam ou
jantam com entes queridos, se juntam para namorar, enfim, que estão vivas.
Separem-se do celular e realizem suas atividades de forma natural. Respeitem
seus pacientes. Curtam os momentos de felicidade, descansem, permitam que o
organismo elimine as toxinas digitais de suas mentes. Utilizem esse dispositivo
magnetizante de forma racional. Permitam-se à liberdade de estar “off-line”, de
ficar “no silencioso”. Faça do telefone uma ferramenta e não permita que se
transforme em seu amo ou senhor. Não aceite que comande suas ações nem
escravize seu pensamento. Essa pequena maravilha está programada para dominar,
escravizar, controlar, comandar, inibir sua capacidade de pensar. Suas correntes
são invisíveis, poderosas e mantêm sua atenção prisioneira dos seus chamados.
Nós não possuímos um meio de comunicação. Ele nos possui, nos controla,
determina nossas ações. Possui um laço que nos mantém amarrados 24 h. por dia. Condiciona
nossas ações através de sons especificamente programados.
A
tecnologia, sem lugar a dúvidas, sempre será bem-vinda, pois graças a ela, o
mundo tem progredido de forma exponencial e, certamente os avanços conquistados
são de um valor incalculável. Não sou contra ela, não a menosprezo nem a
rejeito de forma alguma. Minha preocupação centra-se no efeito perverso de
adição que essa tecnologia provoca. Àquele indivíduo que podemos denominar de
“viciado em bytes” se afasta progressivamente do mundo real e passa a conviver
em um ambiente virtual, onde os parâmetros de realidade, tempo e distância se
diluem, confundem e perdem seu verdadeiro significado. Um poderoso e dominante Superego
digital, controla suas ações em função dos impulsos cibernéticos recebidos. Um Superego
digital narcisista e poderoso, um juiz, um censor, que determina prioridades, que
aumenta sua força e se retroalimenta com o domínio de cada nova tecnologia
colocada à disposição.
A
própria linguagem das pessoas, encontra-se distorcida por palavras e expressões
geralmente em inglês, que descaracterizam seu próprio idioma, e torna a
conversa quase que codificada. Não é boa práxis sermos inimigos dos avanços
tecnológicos, porém, devemos ter o necessário bom senso para não permitir que
nos devorem e arrastem como uma torrente incontrolável, fazendo nos perder o
verdadeiro sentido da vida. Ser tecnologicamente atualizados certamente nos
permite melhorar nosso desempenho profissional, e nos abre muitas portas pelo
mundo afora, mas, quando essa atualização se transforma em adição, o
desempenho, certamente começará a ficar comprometido, e as portas do mundo
real, inicialmente abertas, uma a uma se fecharão, até restar unicamente o
espaço virtual, sem vida, sem o necessário calor humano, tão caro à
sobrevivência do homem.
Não
podemos ficar reféns da tecnologia, embora a tentação a viver conectados seja
grande, pois desta forma estaremos nos isolando do convívio diário, do diálogo,
da carícia, do calor da pele. Dessa imprescindível dose de isolamento que nos
permite sentir prazer em viver e viver com prazer. Corremos o iminente perigo
de nos transformar em objetos virtuais, descartáveis (deletáveis) e
com a possibilidade de trocar por outro melhor e mais moderno (fazer
upgrade) toda vez que nossas expectativas não sejam atendidas a
contente. Se olharmos com atenção ao nosso redor, poderemos observar que isso
já está acontecendo. No trabalho, na família, no amor, na relação de amizade,
nos negócios e em toda e qualquer atividade do ser humano moderno. Estamos,
cada vez mais, incorporando tecnologia e, lamentavelmente, descartando pessoas.
Você
pode concordar ou não, porém essa é minha opinião, aqui, somente entre nós.
Nenhum comentário:
Postar um comentário